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1ª Seminário Elas nas exatas: pela equidade de gênero na educação pública é realizado no Rio de Janeiro

Nesta segunda-feira (19) aconteceu, no Museu do Amanhã (RJ), o 1ª Seminário Elas nas exatas: pela equidade de gênero na educação pública, que debateu a inserção e a permanência de meninas e mulheres nas áreas de ciências e tecnologias. O evento foi promovido pela Fundação Carlos Chagas, Fundo ELAS, Instituto Unibanco e ONU Mulheres, parceiros na realização do Edital Gestão Escolar para Equidade: ELAS nas Exatas. Durante a abertura, representantes das organizações dedicaram o seminário à vereadora Marielle Franco, socióloga, feminista e ativista pelos direitos humanos que foi assassinada no dia 14 de março na capital fluminense.

O primeiro painel falou sobre o cenário das políticas educacionais para o alcance da equidade de gênero. Glória Blonder, da Cátedra Regional da UNESCO sobre Mulheres, Ciência e Tecnologia, começou explicando que o público feminino é menos escasso em biologia, química e engenharia de alimentos. Em disciplinas como computação, informática e física o cenário muda, as estatísticas mundiais apontam que mulheres não ultrapassam 20%.

Além de poucas garotas entrarem nesses tipos de cursos, há desistências durante a graduação, na transição para o mercado de trabalho e quando a carreira já está em fase de consolidação, aproximadamente 30% das mulheres de tecnologias e engenharias que vão para empresas desistem. Glória explicou ainda que “igualdade não é uma questão de número”, não basta ter um quadro de profissionais composto 50% por mulheres e 50% por homens. Por fim, defendeu que as políticas públicas devem ser criadas com a participação da sociedade, de forma colaborativa e intersetorial.

Alice Paiva de Abreu, professora emérita na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apresentou os avanços e os desafios da relação entre as ciências e a questão de gênero nos últimos 20 anos. Alice ressaltou a importância da diversidade e da multiplicidade de pontos de vista para uma produção de conhecimento mais consistente. “Mais mulheres, melhor ciência”, afirmou. Moderadora da mesa, a física Katemari  Rosa, defendeu a diversidade racial e ressaltou a importância da construção de políticas públicas para a inserção da população que não está representada nessas áreas, que é a formada por negras. Já a plateia lembrou da inserção e participação das mulheres indígenas nesses espaços.

O debate sobre negritude continuou com a socióloga Suelaine Carneiro, da Geledés Instituto da Mulher Negra, que citou o apagamento da história negra nas ciências. Suelaine também falou sobre o papel da família e do acolhimento da escola para que meninas se sintam encorajadas na escolha da carreira. Sandra Unberhaum, pesquisadora na Fundação Carlos Chagas, apresentou os resultados da pesquisa “Elas Nas Ciências: Um Estudo Para a Equidade de Gênero no Ensino Médio”, lançada neste mês e realizada com o apoio do Instituto Unibanco. O levantamento foi feito em dez escolas estaduais de São Paulo por meio da aplicação de questionários para estudantes e professores do 3° ano do Ensino Médio, e grupos de discussão. 45,7% do público participante acredita que existem trabalhos que devem ser realizados somente por homens e 35,6% concorda que a mulher é mais capacitada para o trabalho doméstico do que o homem.

Além dos dados, Sandra apresentou algumas falas dos grupos de discussão que mostram a atuação da escola e da família para desestimular a escolha de meninas para seguir carreiras de exatas. Para a pesquisadora, tendemos a reproduzir um modelo de atuação social para homens e mulheres, com expectativas e atribuições distintas. “Uma escola sexista é reflexo da sociedade”, finaliza.

O Seminário terminou com a roda de conversa “Experiências de ensino – a aprendizagem para a equidade de gênero e a inserção das jovens mulheres nas exatas”. Cristina Luz, desenvolvedora Full-Stack, falou sobre o Desprograme, organização que criou com o intuito de democratizar a programação e promover a diversidade na tecnologia. A bióloga perita Natália Oliveira mostrou o videoclipe que produziu para explicar a sua tese de doutorado sobre o desenvolvimento de biossensores para as ciências forenses. O vídeo que inclui dança e teatro venceu, por voto popular na categoria de química, a competição mundial “Dance your PhD”, promovida pela revista Science.

A analista de sistemas Fernanda Monteiro, que atua em iniciativas como Marialab e Infopreta, afirmou que, além de discutir sobre o acesso a graduações das áreas de exatas e ciências, é preciso observar a dificuldade de crianças para entrar no ensino básico e da aprendizagem de ciências na escola. Por fim, a física Márcia Barbosa discorreu sobre a pressão que as mulheres graduadas em cursos de exatas sofrem no mercado de trabalho. Também apresentou gráficos que mostram que o número de mulheres é decrescente conforme os níveis de estudo avançam para iniciação científica, mestrado e doutorado.