QUAL USO DEVE SER FEITO DAS AVALIAÇÕES?

Boletim 64 - julho de 2021

Desde a criação, na década de 90, do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), o Brasil ampliou significativamente o número de exames e de estudantes avaliados por esses instrumentos. Mudanças recentes na política pública – caso da aprovação da BNCC e da reforma do Ensino Médio – e o fim neste ano do ciclo de metas previsto para o Ideb – principal indicador da qualidade do ensino no país – reforçaram entre especialistas o debate a respeito da necessidade de mudanças em nossos instrumentos de avaliação da aprendizagem.  

 

Essas discussões são relevantes tanto para a definição de políticas públicas nacionais quanto para a gestão escolar, e uma das principais perguntas que move esses debates é: qual uso devemos fazer das avaliações para que elas resultem em ações que efetivamente melhorem a aprendizagem dos alunos.?

Durante os meses de junho e julho, o Instituto Unibanco e o Conselho Nacional de Educação realizaram quatro webinários sobre o presente e futuro das avaliações educacionais. Uma das principais questões dos debates foi justamente como as escolas e as redes de ensino podem tirar melhor proveito dos diagnósticos relativos à aprendizagem.

O desafio sobre o que fazer com os resultados vale tanto para exames externos quanto internos − os sistemas de avaliação adotados em cada escola. Os especialistas concordaram com a premissa de que a avaliação não é um fim em si mesma. Logo, deve contribuir de alguma forma para a melhoria da qualidade da educação. Nem que seja ao revelar que determinada política educacional não está cumprindo o seu objetivo.

A presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Maria Helena Guimarães de Castro, destacou a importância do Saeb como indutor de políticas educacionais no país − do combate à repetência à alfabetização e à avaliação do livro didático.

"Não tem nenhuma avaliação em larga escala, nacional, mais importante que o Saeb. O Saeb, ao longo da sua existência, atuou como um grande indutor de aperfeiçoamento das políticas públicas, tanto é que foi utilizado amplamente no Plano Nacional de Educação para definir metas."
Maria Helena Guimarães de Castro
presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE) e presidente da Associação Brasileira de Avaliação Educacional (Abave)

Maria Helena destacou que o Saeb deve ser alinhado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e às diretrizes de formação de professores.

“A discussão do novo Saeb está diretamente relacionada à nova BNCC. O que a gente precisa fazer, quais competências nós vamos avaliar? Como nós vamos avaliar? Quais são aspectos do Saeb atual que precisam ser aperfeiçoados? O que mostram as avaliações internacionais sobre avaliação das aprendizagens?”, observou.

Apesar de reconhecer a importância do exame, os especialistas também apontaram pontos a serem aprimorados, como a necessidade de mais celeridade na disponibilização dos resultados do Saeb, para que as redes de ensino possam fazer uso dos dados já no começo do ano seguinte.

“Esse negócio de levar oito meses para distribuir relatórios não causa o impacto que a gente poderia. Mesmo o Saeb aplicando em novembro, nós podemos pensar em dar resultados já no início de março ou no final de fevereiro. É possível fazer isso."
Nilma Fontanive
coordenadora do Centro de Avaliação da Fundação Cesgranrio

A coordenadora do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd) da Universidade Federal de Juiz de Fora, Lina Kátia de Oliveira, defendeu o aperfeiçoamento das avaliações externas de larga escala, como o Saeb. Ela sugeriu, por exemplo, que os alunos do 7º ano do ensino fundamental também passem a ser avaliados − atualmente, o teste é dirigido a estudantes do 2º, 5º e 9º anos do ensino fundamental e da última série do ensino médio.

"Acho importantíssima a inclusão do 7º ano, o problema todo que chega no ensino médio está justamente nessa etapa de escolaridade.”
Lina Kátia de Oliveira
coordenadora do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd) da Universidade Federal de Juiz de Fora

A diretora-executiva do Instituto Reúna, Katia Stocco Smole, disse que a avaliação é um tema que precisa ser mais explorado nos cursos de formação inicial e continuada de professores. Segundo ela, boa parte dos professores sabe pouco sobre como fazer uso dos resultados das avaliações.

"O futuro da avaliação precisa ser o futuro da melhoria dos processos em sala de aula. A principal essência da avaliação é fazer com que os alunos aprendam, é melhorar a qualidade do ensino e da aprendizagem."
Katia Stocco Smole
diretora-executiva do Instituto Reúna

Avaliações no cotidiano escolar

No chão da escola, há várias experiências de professores e gestores que merecem reflexão sobre o melhor uso desses instrumentos e dos internos à escola na definição de estratégias para aumentar a aprendizagem. Em Minas Gerais, a Escola Estadual Pedro Vicente de Freitas, no município de Muriaé, registrava altos índices de evasão e reprovação. Quem conta é o diretor José Antônio Carneiro, lembrando que boa parte dos estudantes tinha dificuldades de aprendizagem. A escola decidiu, então, realizar uma avaliação diagnóstica, o que abriu caminho para a reversão do quadro.

Em vez de apenas mensurar o desempenho ao final do processo educativo, a avaliação diagnóstica serve como ponto de partida para o trabalho pedagógico, ao mapear lacunas e aprendizagens prévias dos estudantes.

Primeiramente a avaliação mostrou que os alunos chegavam ao Ensino Médio com graves lacunas de aprendizagem no Ensino Fundamental. Logo, não surpreendia que muitos desistissem.

"Percebemos a deficiência na aprendizagem dos alunos ao longo do Ensino Fundamental e que eles ficavam desmotivados, porque estavam sem embasamento para continuar seus estudos no Ensino Médio.”
José Antônio Crneiro
diretor da Escola Estadual Pedro Vicente de Freitas (MG)

A professora Cíntia de Barros Maia, que leciona na mesma escola, lembra o caso de um estudante do 1º ano do Ensino Médio que tinha problemas de alfabetização e baixa capacidade de leitura.

"A desmotivação dele estava muito baseada na insegurança pela falta de compreensão na sua própria leitura."
Cíntia de Barros Maia
professora da Escola Estadual Pedro Vicente de Freitas (MG)

Os resultados da avaliação diagnóstica permitiram a elaboração de planos de aula diferenciados, com o intuito de recuperar a aprendizagem conforme as defasagens de cada aluno. A professora Cíntia Maia conta que, com a ação, houve melhoria na proficiência dos alunos e os casos de reprovação – que antes geravam uma média de oito retenções para cada grupo de 30 alunos de uma turma no 1º ano – foram zerados em 2019. Os relatos de Cíntia e Carneiro fazem parte do Banco de Soluções do Instituto Unibanco.

Em Campo Grande (MS), a diretora da Escola Olinda Conceição Teixeira Bacha, Evelise Ribeiro, percebeu que a divulgação das notas, ao final de cada bimestre, não era acompanhada de providências pedagógicas para a superação das dificuldades. Foi aí que ela teve a ideia de mudar a forma como os resultados eram apresentados nas reuniões do conselho de classe.

Com o auxílio de uma planilha de Excel, a gestora passou a gerar gráficos que retratavam quantos alunos estavam abaixo e acima da média em cada disciplina. As imagens causaram impacto, pois muitos estudantes estavam longe do mínimo desejado. A diretora conta que a estratégia ajudou a conscientizar alunos e professores dos problemas, que se engajaram mais em ações para elevar os níveis de aprendizagem − e houve avanços já no bimestre seguinte.

Outra experiência relatada no Banco de Soluções é a da Escola Padre José Augusto Régis Alves, localizada num assentamento de reforma agrária no município de Jaguaretama (CE). A equipe escolar analisou o desempenho dos estudantes em língua portuguesa e matemática, tendo como referência os descritores (descrição de habilidades e conhecimentos avaliados) do Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará (Spaece).

Uma vez identificadas as fragilidades, a escola criou grupos de estudo no contraturno. Alunos com maior domínio de determinado conteúdo deveriam “adotar” um colega com déficit de aprendizagem, colaborando para melhorar seu desempenho no bimestre.

A escola já havia constatado que muitos estudantes chegavam ao Ensino Médio com fragilidades do Ensino Fundamental.

"A felicidade é imensa de estar podendo ajudar a transferir o meu conhecimento de forma benéfica. Porque, dentro da sala de aula, a gente não só ensina, mas a gente aprende."
Joelma Gomes
estudante

No Espírito Santo, a pedagoga Rosali Rauta Siller também fica de olho nos descritores das habilidades a ser desenvolvidas (e avaliadas) no Ensino Médio. A cada trimestre, quando saem as notas dos alunos da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Graça Aranha, no município de Santa Maria de Jetibá, a pedagoga verifica quais foram as principais dificuldades dos estudantes no período. O ensino desses conteúdos, então, é reforçado por meio de um programa de monitoria em que colegas com melhor desempenho auxiliam os demais.

Nas três últimas décadas, o Brasil avançou significativamente no monitoramento da qualidade da educação. É preciso, porém, continuar o processo de aperfeiçoamento das avaliações.  Seus vários usos, internos e externos, por escolas e redes mostram que há caminhos para que esses instrumentos cumpram de forma mais efetiva sua função de apoio aos profissionais da educação na elaboração de estratégias para garantia do direito de aprendizagem.  

Saiba mais:

Aprendizagem em Foco é uma publicação quinzenal produzida pelo Instituto Unibanco.

Tem como objetivo adensar as discussões sobre o contexto educacional brasileiro, a partir de pesquisas, estudos e experiências nacionais e internacionais.

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