Notícias

Como oferecer apoio socioemocional aos estudantes em meio à pandemia

Publicado em: 08/04/2020

Uma primeira preocupação de educadores e famílias frente à interrupção das aulas por tempo indeterminado tem sido como minimizar o prejuízo em relação à aprendizagem dos conteúdos curriculares. Porém, o isolamento social exigido pela pandemia de coronavírus traz também um outro desafio: como a escola pode contribuir para a saúde mental e o equilíbrio emocional dos estudantes? O bem-estar dos estudantes não deve nunca ser colocado como secundário, ainda mais em um momento de crise tão severa quanto a atual (sobre a relação indissociável entre emoções e aprendizagem, leia mais neste Boletim Aprendizagem em Foco). 

“Para compreender os efeitos do isolamento social para o processo de escolarização dos adolescentes, é importante lembrar que a escola não é um espaço de mera transmissão de conteúdos ou de preparação para a vida adulta, mas também de convivência e de organização social para eles”, ressalta a doutora em Educação pela Unicamp, professora e pesquisadora da pós-graduação em Educação da Unimep, Nana Haddad. 

Priorize a interação Nesse sentido, é fundamental que a escola esteja atenta a essa outra lacuna imposta pelo afastamento social na rotina dos adolescentes. Frente à crise global na educação provocada pela pandemia de coronavírus e a partir da experiência de países que já passaram pelo estágio mais crítico da covid-19, como a China, organismos internacionais têm publicado guias e documentos orientadores com o objetivo de apoiar os sistemas de ensino a lidar com os desafios impostos pela doença. A Unesco divulgou 10 recomendações sobre ensino a distância e uma delas traz justamente esse ponto de atenção sobre a importância da interação social:  

Dê prioridade a desafios psicossociais, antes de problemas educacionais  Mobilize ferramentas que conectem escolas, pais, professores e alunos. Crie comunidades que assegurem interações humanas regulares, facilite medidas de cuidados sociais e resolva desafios que podem surgir quando os estudantes estão isolados.   

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também orienta os educadores a ficarem atentos ao equilíbrio emocional dos alunos

O contexto da pandemia e de fechamento das escolas pode ser perturbador e desorientador para os estudantes. As soluções tecnológicas precisam promover conexão, interação e apoio durante a aprendizagem, especialmente nesse momento de incertezas.  

Como as escolas podem atuar 

A professora e pesquisadora Nana Haddad destaca que uma das contribuições da escola no apoio socioemocional aos estudantes é promover a reflexão sobre essa crise vivenciada por todos, seja pelos sentimentos que ela pode suscitar, seja porque o desenvolvimento do pensamento crítico é fundamental nessa fase. “Esse momento de pandemia e de iminência de uma doença entre pessoas próximas é algo que também deve ser uma preocupação da escola. Mais do que assegurar uma transmissão de conteúdos em outras plataformas, é importante oferecer opções de discussões altamente qualificadas que ajudem o jovem e o adolescente a compreender o momento que eles estão vivendo.” 

Uma outra estratégia sugerida pela especialista para mitigar o isolamento social é, quando possível, a realização, por recursos digitais, de rodas de conversa sobre assuntos cotidianos, não necessariamente relacionados a conteúdos da escola, mas que possibilitem aos alunos um momento de interação social e de contato com outras questões que não sejam do ambiente doméstico ou relativos à doença. “Retirar o aluno um pouco desse contexto e favorecer a interação dentro do grupo pode ser uma iniciativa interessante”, pensa Nana. 

Em artigo publicado na revista educacional americana EdWeek, a educadora Brittany L. Collins lista algumas sugestões, baseadas em estratégias de ensino em contextos de trauma. Ela também reforça a orientação para haja espaço para os alunos falarem sobre o que estão sentindo, e para que os professores possam compartilhar seus sentimentos com os estudantes, reforçando os laços entre eles. Outra recomendação é a sugestão para que alunos possam estabelecer uma rotina.   

“Incontáveis estudos sobre trauma sugerem que estabelecer um senso de rotina em meio ao estresse ajuda os estudantes a manterem (ou recuperarem) sentimentos de controle, garantindo que eles saibam o que esperar. Algo tão pequeno quanto estabelecer um cronograma de atividades diárias pode ajudar a estruturar os dias dos alunos em tempos de agitação, quando tudo parece muito pouco familiar”, afirma a educadora em seu texto. 

A sugestão para que os estudantes estabeleçam uma rotina aparece também como recomendação para os estudantes que o Unicef divulgou em sua página (veja outras dicas para os alunos aqui).  

Um ponto importante levantado no artigo da educadora Brittany L. Collins é a atenção com o socioemocional dos professores também. Neste ponto, os gestores escolares têm papel fundamental, dando especial atenção aos profissionais que estejam aparentando mais dificuldade para lidar com a crise, e criando canais para que eles possam compartilhar seus sentimentos e receber apoio dos gestores ou de colegas.  

Veja abaixo uma lista de oito dicas, selecionadas pelo Instituto Unibanco a partir das fontes listadas neste texto:

PARA SABER MAIS 

Veja como uma escola na periferia de Campinas usou mídias sociais para fortalecer laços entre professores e alunos 

Como adolescentes podem proteger sua saúde mental durante o surto de coronavírus (Covid-19)

Prioritizing Human Connection When Social Distancing Is the New Norm

Quarentena: a importância dos cuidados com a saúde mental para crianças, adolescentes e toda a família

Yes, You Can Do Trauma-Informed Teaching Remotely (and You Really, Really Should)