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Para convidados do segundo debate “Olhares para Educação Pública”, escola tem que ser espaço de troca e diversidade

Diversidade, respeito ao outro, acolhimento e liberdade foram alguns dos assuntos discutidos no segundo debate da série “Olhares para Educação Pública”, realizada pelo Instituto Unibanco no MIS (Museu da Imagem e do Som). O ciclo acontece todas as terças-feiras, até 4 de junho.

Ontem (21.05) foi a vez da escritora Ana Maria Gonçalves, do jornalista e ativista de direitos humanos Leonardo Sakamoto e a líder indígena Sonia Guajajara conversarem sobre o papel da escola pública e da educação.

Nascida em uma aldeia no Maranhão, Sonia Guajajara abriu sua fala com um alerta de que o Brasil não reconhece as culturas tradicionais: “Não ensinaram que aqui há inúmeras línguas indígenas. Então, quando entrei na escola, fui obrigada a falar outra língua que não era a minha”. Ela cursou a educação básica em um povoado próximo a sua aldeia e fez o ensino médio em um colégio interno em Minas Gerais, a muitos quilômetros de sua terra natal. “A educação formal me deu conhecimento, a capacidade de ler e escrever, mas foi o movimento pelos direitos indígenas que me deu sabedoria”, disse.

Para Leonardo Sakamoto, criado na periferia da Zona Sul de São Paulo, bem distante da realidade de Sonia, o papel da escola deveria ser o de libertar e de criar cidadãos capazes de transformar suas realidades. “Uma boa escola pública não tem que dar apenas conhecimento e sim garantir instrumentos para que esse conhecimento seja usado por cada um de nós de forma redentora e de forma a ser subversivo com a sua própria história”.

Nesse aspecto, Ana Maria Gonçalves acredita que as escolas estão em dívida profunda com milhões de crianças e jovens negros e indígenas. “Espero que a escola brasileira tenha a coragem de se assumir como instituição eugenista”, explicou a escritora, ao lembrar que as primeiras instituições de ensino básico no Brasil foram comandas por médicos de pensamento racista. “Para melhorar a educação é preciso partir desse ponto e eliminar qualquer resquício, e são muitos, de racismo nas escolas.”

Da plateia, Cida Bento, coordenadora executiva do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), fez uma provocação: “Precisamos falar mais dos atrasos da elite brasileira”. E Pilar Lacerda, diretora da Fundação SM e que também foi Secretária Nacional de Educação Básica, lembrou da importância de ter em todos os espaços institucionais representantes negros, indígenas, dos movimentos LGBTI e mulheres – e que na educação essa diversidade é fundamental. Ambas assistiram ao debate e interagiram com os convidados da mesa.

Um mãe que viu o filho com deficiência sofrer agressões e exclusão disse não ter mais fé na escola e perguntou o que é possível fazer para tornar o ambiente escolar em um espaço mais acolhedor. Os três convidados foram unânimes ao defender que a escola deve ser espaço de troca e de diversidade. “Não acredito que a escola seja o único espaço de convivência. Existem as igrejas, os vizinhos, as famílias, as comunidades. Mas ela é o melhor espaço de socialização porque é a primeira experiência de convivência de uma criança com as diferenças”, finalizou Sakamoto.

O encontro foi iniciado com uma breve apresentação de Ricardo Henriques, que reforçou o compromisso do Instituto Unibanco com a diversidade e a equidade na educação, e o debate foi da mediado pela jornalista Flávia Oliveira. A programação faz parte do projeto de registro “Ser Diretor – Uma viagem por 30 escolas públicas brasileiras”, composto de livro e exposição que está em cartaz no MIS até o dia 23 de junho. O próximo debate será no dia 28 de maio, com o psicanalista Christian Dunker, com a escritora e atriz Elisa Lucinda e com o escritor indígena Daniel Munduruku.

 

Confira como foi o primeiro de debate  do ciclo Olhares para Educação Pública