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Superintendente do Instituto Unibanco fala sobre desafios da educação brasileira no século XXI

“As pessoas nascidas na década de 80, no Brasil, possuem a mesma escolaridade dos nascidos em 1951 no Chile”, disse Ricardo Henriques, superintendente do Instituto Unibanco, na última quinta-feira (18/04), ao exemplificar o quão defasada está a educação brasileira. A palestra, que também contou com a participação do jornalista Carlos Sardenberg, aconteceu antes do debate “A nova era da incerteza. Para compreender o século XXI com Mario Vargas Llosa”, em que o Prêmio Nobel de Literatura falou sobre os contextos políticos, sociais e econômicos da América Latina.

Diante da provocação em relação à era da incerteza, Henriques falou sobre os desafios da educação brasileira no século XXI e, para ilustrar, comparou a escolaridade média dos chilenos nascidos em 1980, que é de 12 anos de estudo, com a dos brasileiros nascidos no mesmo ano, de 9 anos. Com uma defasagem equivalente a uma geração, a média de escolaridade dos brasileiros que se encontram hoje na faixa dos 30 anos corresponde à média dos chilenos que têm cerca de 60 anos.

“Nossos jovens foram formados numa escola radicalmente distante dos desafios desse mundo. É uma juventude que está aquém para uma sétima economia do mundo”. E é nesse contexto, com uma escola bastante parecida com a de décadas atrás, que estamos tentando lidar com as demandas de uma sociedade do conhecimento – globalizada, competitiva, complexa, tecnológica e dinâmica -, que exige que as pessoas tenham competências cognitivas, interpessoais e intrapessoais.

O Ensino Médio é um gargalo nesse cenário. De acordo com Henriques, o Ideb no Ensino Médio está estagnado em níveis significativamente abaixo do esperado (permanece em 3,4 desde 2009). Além disso, um estudo realizado pelo Instituto Unibanco, que mede a “Audiência do Ensino Médio” (aulas efetivamente dadas com alunos e professores presentes em sala), mostra que os alunos só dispõem de 44% do tempo que estão na escola para aprender. Isso significa que de 800 horas previstas pela legislação brasileira, apenas 352 horas são efetivamente direcionadas ao aprendizado.

Essa situação fica ainda mais crítica, quando analisamos o número de jovens de 15 a 19 anos fora da escola. Mais de dois milhões de jovens fazem parte da chamada juventude “nem-nem”, os que não estudam e nem trabalham. “Que sociedade estamos construindo com 17% dos jovens fora da escola, diante dos desafios de ciência e tecnologia que o mundo atual pede?”, provocou Henriques ao dizer que “estatisticamente podemos imaginar que entre esses jovens teríamos alguns de nossos melhores médicos, professores, engenheiros, cientistas …”

Henriques aponta que um dos motivos para o desinteresse, que faz com que parte significativa desses jovens abandone a escola, é o fato de o currículo do Ensino Médio ser conteudístico, enciclopédico, possuir mais de uma dezena de disciplinas obrigatórias e ser pouco flexível. “Temos uma escola tradicional, que se distancia da realidade e não dialoga com o jovem”. Ele acredita que uma das alternativas é ter um currículo básico obrigatório com poucas matérias e o restante flexível, com opções de percursos formativos que atendam as necessidades das juventudes. “Podemos ter disciplinas optativas e eletivas, de forma que aqueles que gostam de matemática, sigam a área de exatas, aqueles que gostam de língua portuguesa, estudem a área de linguagens, e assim por diante”, apontou.