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Debate com cineastas marca lançamento dos filmes do “Edital Conexão Juventudes”

25/08/2022 | Editado em 26/08/2022 17:21

Programação especial foi promovida pelo Instituto Unibanco e pelo 33º Curta Kinoforum. Festival vai até o próximo domingo (28), em salas de cinema e online

Convidados dividiram experiências e sensações dos períodos de gravações (foto: Paulo Cesar Rocha)

Emoção, análises, agradecimentos pelo acolhimento e celebração do poder transformador da educação. Este foi o tom que marcou o debate entre diretores, produtores e fotógrafos responsáveis pelos seis documentários vencedores do “Edital Conexão Juventudes”, na última sexta-feira (19), no anexo do Espaço Itaú de Cinema, na Rua Augusta, em São Paulo. Promovido pelo Instituto Unibanco e pela Associação Cultural Kinoforum, o bate-papo compôs a programação do 33º Festival Internacional de Curtas de São Paulo – Curta Kinoforum, que lançou os filmes focados nos desafios educacionais durante a pandemia.

O evento teve início com as boas-vindas dos representantes oficiais dos organizadores. Vânia Silva, coordenadora executiva da Kinoforum, agradeceu a presença do público e parabenizou o trabalho. “Me lembro da primeira vez que conversamos sobre abrigar este debate aqui no festival. Para a gente, é bem rico ter essas discussões e esses filmes produzidos em diversos cantos”, disse. Por sua vez, Ricardo Henriques, economista e superintendente-executivo do Instituto Unibanco, ratificou a importância da ocasião e o compromisso com políticas públicas educacionais. “É uma honra poder estar nesta jornada juntos. O Instituto (Unibanco) tem convicção que educação sem cultura não é educação. Estamos sempre à busca de fomentar linguagens, conduzir processos que gerem encantamento e sejam capazes de fazer com que estudar e aprender seja como aprender a falar com o vento, que tenha encanto. É muito bom estar com todos os realizadores independentes. Parte da nossa estratégia foi descentralizar, fomentar e dar visibilidade aos profissionais de qualidade fora do eixo Rio-São Paulo”, comentou.

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Ricardo Henriques destacou o edital, que buscou descentralizar recursos para fomentar e dar visibilidade aos profissionais de qualidade fora do eixo RJ-SP (foto: Paulo Cesar Rocha)

“Realidade de forma ainda mais radical”

Na sequência, Priscila Pezato, da comunicação do Instituto Unibanco, apresentou os convidados, as mediadoras e reforçou o poder transformador das obras. “São filmes de fomento para a sociedade. O audiovisual provoca e transforma através de vários olhares, de maneira profunda”, disse. A condução da conversa ficou sob responsabilidade de Val Gomes, cineasta e membro da comissão de seleção dos projetos, que destacou “processos ritualísticos, dispositivos e técnicas de observação”, e Marcia Medeiros, uma das mentoras envolvidas no processo. Segundo ela, “o conjunto nos dá o retrato do Brasil no período da pandemia. Traz essa realidade de forma ainda mais radical”.

O bate-papo começou com Victor Dias, diretor, e Bernardo Machado, diretor de fotografia, de “Onde Aprendo a Falar com o Vento”, que acompanhou o preparo de um festejo, onde os jovens aprendem sobre a história da pequena Oliveira (MG). “Lembramos do reinado e dos jovens do ‘reinadinho’ na ideia de pensar na ocupação das escolas com o saber. O rito é central. Uma ferramenta para discutir a educação como espaço de aprendizado. Mas também existem outros espaços, outras formas de ver o mundo que a cultura ocidental ignora. A escola seria mais rica se enxergasse o mundo de outra forma, como compartilhar ideias de povos indígenas, quilombos para promover a diversidade”, explicou Victor. “(O filme) Fez muito sentido na minha trajetória como fotógrafo. Aprendi a entender e escutar. Coloquei em prática essa educação que eu tive, do que aprendi em todos esses espaços frequentados”, emendou Bernardo.

Marcio Bigly, diretor de “DesConectados”, lembrou da experiência da única escola pública estadual da cidade de Tanque, no semiárido piauiense, onde o acesso à internet ainda não é uma realidade. “Desde o início, foi bem emocionante. A equipe foi eu e minha esposa, Talyta Magno, produtora-executiva. Nos inscrevemos no edital no último dia e isso mudou a nossa vida. Foi bom conhecer as pessoas, viajar, e entender que não devemos deixar nada nos abater. É uma cidade que não oferece nenhuma oportunidade além da vida na roça. Tenho uma filha de seis anos e é difícil ver uma família sem perspectivas”, disse. “O filme foi um aprendizado completo. Feito por duas pessoas. Aprendi a pilotar um drone e a trilha sonora também é minha”, acrescentou ao responder uma das questões exibidas no telão feita pelo diretor e autor de documentários e filmes de ficção João Jardim, que participou da seleção dos projetos e realizou mentoria para as produtoras envolvidas.

“Só a educação resolve”

Leandra Moreira, produtora-executiva, e Gustavo Pimenta, diretor, falaram sobre “Adolescer”, que retratou a transformação vivida por jovens da periferia de Vitória, no Espírito Santo. “Central Carapina é um bairro de um município conectado à capital, mas com distância social gigantesca. Escolhemos a escola e muitas histórias de superação em meio à violência. Entendemos que só a educação resolve”, resumiu. “Retratamos quatro estudantes. Entrevistamos mais de 30. Fazer a essa ‘peneira’ foi difícil. Notamos a violência urbana e a resiliência para encarar o dia a dia com esperança e sorriso. Todos nos deram a possibilidade de ampliar o nosso olhar”, analisou Gustavo.

Em Goiás, “Contraturno” acompanhou dois adolescentes na retomada das aulas presenciais e o desafio de conciliar rotina, estudos e trabalho. A diretora Larissa Fernandes destacou a evasão escolar por conta da necessidade do trabalho. “De cada dez alunos, nove precisavam trabalhar e a escola não sabia o que fazer. Mesmo assim, toda a escola era dedicada para que isso não acontecesse. Nosso personagem, Vitor, é cativante. Nos apaixonamos quando o conhecemos. O pai dele morreu. É criado pela mãe e já tem a responsabilidade de prover, de ajudar em casa”, explicou. O diretor Deivid Mendonça completou que foi preciso “jogar” junto com as pessoas envolvidas. “Entrávamos nas casas. Precisávamos que o filme fosse deles. De alguma forma, encontramos neles as dores e as potências de todo o processo de pesquisa.”

Por fim, Rodrigo Sena, diretor e roteirista, e o Cacique Luiz Katu, personagem e assistente de direção, de “Antes do Livro Didático, o Cocar (RN)”, destacaram a importância da representatividade da cultura indígena e a segurança da linguagem cinematográfica. “Nosso sotaque precisa ser ouvido. Precisamos ocupar espaço. Apresentamos uma proposta de sair de um padrão, e foi ótimo. Subverter mesmo, porque cinema não é TV e entretenimento. Convidamos todo mundo que assistir a pensar com a gente. Não estamos apenas de passagem”, contextualizou Rodrigo.

O Cacique reforçou a ideia de trazer uma forma de empoderamento e equidade. “Para nós, indígenas, isso é importante para combater a visão eurocentrista. Aceitar o indígena opinando, participando, recontando. Colocamos um questionamento direto a todos. O indígena não está somente no cocar. O filme representa a liberdade de expressão e direito de fala de cada participante. O filme traz uma chamada de atenção à população indígena do Nordeste, principalmente do Rio Grande do Norte e Piauí, que muitos disseram que nem existiam mais”, finalizou.

Liberdade de expressão e direito de fala foram pontos destacados pelo Cacique Luiz Katu (foto: Paulo Cesar Rocha)

Exibições e o Curta Kinoforum

Os seis curtas foram exibidos em duas sessões na sexta-feira – antes e depois do debate -, no sábado, na Sala Lima Barreto, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), e estão disponíveis na plataforma do Itaú Cultural, o IC Play https://www.itauculturalplay.com.br/. A 33ª edição do Festival Internacional de Curtas de São Paulo – Curta Kinoforum acontece até o dia 28 deste mês, em salas de cinema da cidade de São Paulo e de forma online. A programação está disponível em www.kinoforum.org.

Um dos mais importantes eventos mundiais dedicados ao filme de curta duração, o festival é gratuito e promove a exibição de mais de 200 filmes, de 42 países. A programação é organizada nas mostras Brasil, Latino-americana e Internacional, além de programas especiais, debates, encontros e masterclass.

 Sobre o edital

Com apoio técnico e financeiro no valor de R$ 130 mil por documentário, o Edital Conexão Juventudes, promovido pelo Instituto Unibanco em parceria com o Instituto de Políticas Relacionais (IPR) e a Brasil Audiovisual Independente (Bravi), selecionou seis produtoras entre dezenas de inscritas. A escolha dos projetos ficou a cargo de uma comissão julgadora composta pelos cineastas João Jardim, João Moreira Salles e Val Gomes, além de Tiago Borba; Mauro Garcia, presidente da Brasil Audiovisual Independente (Bravi); e Eliane Costa, coordenadora do MBA Bens Culturais: cultura, economia e gestão, da Fundação Getúlio Vargas. Já durante a execução, as produtoras receberam mentoria, além de João Jardim, da cineasta Marcia Medeiros, na montagem.

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