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Estudo Perda de aprendizagem na pandemia

01/06/2021 | Editado em 02/06/2021 17:55

Desde março de 2020, redes de ensino de todo o país tiveram que suspender as aulas presenciais, em observação às medidas de distanciamento social, necessárias para a contenção da pandemia. Para que seus alunos pudessem seguir estudando, as redes públicas estaduais se organizaram rapidamente para garantir, da melhor forma possível, a continuidade do ensino em modalidade remota.

No entanto, em meio a tantas restrições e incertezas quanto à data de retorno às atividades presenciais, manter a aprendizagem dos estudantes tem sido extremamente desafiador para todos os envolvidos. A falta de acesso à internet e aos equipamentos necessários para acompanhamento das atividades on-line, bem como a rotina doméstica e a ausência de condições adequadas para estudo em casa foram grandes impeditivos para que esses jovens pudessem se dedicar às atividades educativas. A menor socialização e os problemas emocionais e socioeconômicos de suas famílias também contribuíram para o baixo engajamento dos estudantes.

Obviamente, as perdas de aprendizagem não são as únicas que merecem atenção das políticas públicas. Ainda há muito a investigar sobre como a pandemia afetou, por exemplo, questões de saúde e bem-estar de crianças e jovens. No entanto, sem prejuízo dessas outras dimensões, a pergunta sobre o quanto os alunos deixaram de aprender em 2020 por causa da pandemia no Brasil é de extrema relevância para as decisões que precisam ser tomadas no país a partir de agora.

Considerando a crise sanitária que se estendeu por todo o ano passado e segue com gravidade em 2021, é esperado que tenham ocorrido perdas significativas de aprendizagem entre os estudantes. Esse cenário tende a gerar consequências duradouras na vida desses jovens, que podem se refletir em sua futura participação no mercado de trabalho, em seu nível de renda, saúde e em outras dimensões de seu bem-estar social. Além disso, não podemos esquecer que os estudantes foram afetados de maneira distinta pela pandemia e será preciso foco em alguns segmentos da população para reduzirmos desigualdade que se alargaram.

Em um contexto de poucas evidências sobre a atual situação da educação no país, o Instituto Unibanco e o Insper apresentam os resultados do estudo Perda de aprendizagem na pandemia, que utiliza evidências nacionais e internacionais para estimar a perda da aprendizagem devido à pandemia de Covid-19 entre os estudantes das redes estaduais de educação que irão concluir o Ensino Médio no Brasil em 2021.

O estudo se propôs, na ausência de avaliações somativas ao final de 2020, a estimar a aprendizagem dos estudantes por meio de simulações. O exercício consiste em calcular a diferença entre a proficiência que esses estudantes possivelmente alcançariam se não houvesse pandemia e a proficiência esperada em virtude dos desafios impostos pelo fechamento das escolas.

Os resultados encontrados são alarmantes: o impacto da pandemia sobre os alunos que devem concluir o Ensino Médio em 2021 é grande. Os estudantes que concluíram a 2ª série do Ensino Médio em 2020 possivelmente iniciaram a 3ª série com uma proficiência em Matemática 10 pontos abaixo do que iriam alcançar caso não tivessem tido a necessidade de transitar do ensino presencial para o remoto devido à pandemia. Em Língua Portuguesa, a perda estimada é de 9 pontos. Para referência, um aluno tipicamente aprende, ao longo de todo o Ensino Médio, em média, 20 pontos em Língua Portuguesa e 15 em Matemática.

Caso o ensino remoto seja mantido ao longo de todo o ano letivo de 2021 (com qualidade e engajamento iguais aos de 2020), as perdas poderão alcançar níveis mais elevados: 16 e 20 pontos, em Língua Portuguesa e Matemática, respectivamente.  Ou seja, essa é a perda de aprendizagem que o aluno que concluirá o Ensino Médio esse ano pode vir a ter, como reflexo da pandemia, se não houver melhorias em relação ao ano passado.

Apesar dos desafios, é possível iniciar a reversão dessas perdas potenciais agora. O estudo revela que, com ações para aumentar o engajamento adotando ensino híbrido e melhorando sua eficácia, é possível reduzir significativamente as perdas.

A partir das evidências encontradas, reforça-se a importância das políticas públicas para reduzir os danos para educação em decorrência da pandemia, exigindo eficaz combate à evasão, melhoria da qualidade do ensino remoto, aumento do acesso e engajamento dos estudantes, o retorno seguro ao ensino presencial ou híbrido com as devidas medidas sanitárias necessárias e, por fim, a intensificação de ações para a recuperação e aceleração do aprendizado.

O presente estudo é uma estimativa dos impactos que a pandemia teve no aprendizado numa geração inteira de estudantes, feita com rigor técnico e baseada nas melhores evidências disponíveis. Na ausência de dados que já permitam mensurar as consequências efetivas da pandemia no ensino, o exercício da estimativa é importante para já ajudar na orientação às respostas das políticas públicas aos desafios do presente. Mais do que um alerta, trata-se de um convite à ação. Os prejuízos ao longo da trajetória desses jovens terão menos consequências – ou, no cenário mais otimista, serão compensados – quanto melhores foram as respostas aos desafios impostos pela pandemia. Não temos tempo a perder.

Confira o estudo aqui.

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