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Estudantes, diretores, ONGs, fundações e gestores das secretarias debatem currículo do EM

26/10/2015 | Editado em 26/10/2015 20:09

Quais os principais desafios curriculares do Ensino Médio? Com o objetivo de debater essa questão, o Instituto Unibanco promoveu quatro rodas de conversa realizadas nos meses de setembro e outubro. Para captar as visões e percepções sobre o tema de diferentes atores do campo educacional, os encontros reuniram como participantes: representantes de organizações não governamentais, fundações e institutos (21/09); diretores e coordenadores pedagógicos de escolas públicas e privadas (25/09); estudantes de Ensino Médio (31/09) e gestores das secretarias responsáveis por essa etapa de ensino (13/10).

“Nessa divisão por atores queremos aprofundar o debate, sair do senso comum e entender onde estão as contradições, os avanços possíveis. Com o lançamento da Base Nacional Comum pelo MEC, a relevância dessa discussão ganha força. Nossa expectativa é que a gente consiga sair de alguns consensos fáceis e dar contribuições um pouco mais densas sobre caminhos possíveis no Ensino Médio”, afirmou o superintendente do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques, na abertura da segunda roda.

Frente à complexidade do tema, os debates foram organizados em torno de três eixos: a oferta de uma trajetória única no Ensino Médio, a não adequação à diversidade de juventudes e o currículo conteudista e enciclopédico. Os três tópicos foram definidos a partir de um levantamento de mídia, de eventos realizados e da literatura sobre o Ensino Médio entre 1998 e 2015 e identificados como os três principais desafios curriculares.

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“Precisamos aprofundar esses conceitos que estão estruturando a crítica há mais de dez anos, como o levantamento mostrou”, observou a gerente de Desenvolvimento e Conteúdos do Instituto Unibanco, Lucia Couto. “A ideia é que a gente possa, no futuro, ter uma plataforma de desenhos curriculares e auxiliar, assim, os sistemas de ensino de todo o País”, explicou.

Os grupos deram ênfases distintas aos eixos, havendo divergências nas opiniões, mas também consensos. Sobre o “enciclopedismo” e fragmentação do currículo, por exemplo, tanto os representantes de ONGs como os diretores e professores apontaram como problema não a quantidade de disciplinas ofertadas mas a forma como o conteúdo é trabalhado em sala de aula.

Nesse aspecto, foram levantados vários pontos: a importância de se abordar o currículo de forma interdisciplinar, a metodologia de ensino por projetos e o problema da formação inicial dos professores, que não os prepara para prática integrada de sala de aula.

As deficiências na formação docente foram especialmente destacadas pelos gestores das secretarias. “Costumamos falar que ‘a universidade habilita, mas não forma’”, observou o superintendente do Ensino Médio da Secretaria Estadual de Goiás, Wisley Pereira.

Também foi ressaltado o peso do vestibular e do Enem sobre o currículo – avaliações que, na ausência de uma base nacional, acabam por determinar os conteúdos a serem ensinados no Ensino Médio. Por conta disso, muitos dos jovens presentes na roda discordaram da proposta de reduzir o currículo. “Sempre a primeira pergunta que o professor faz quando chegamos no Ensino Médio é: o que você quer fazer de faculdade?”, relatou um dos jovens.

A necessidade de se criar múltiplas entradas e saídas no Ensino Médio – no lugar de uma trajetória única – também foi abordada. “A gente não pode achar que só um modelo vai dar conta. É fundamental que o jovem tenha escolha”, pensa a secretária executiva de Desenvolvimento da Educação de Pernambuco, Ana Coelho. Essa flexibilização do currículo, no entanto, deve ser acompanhada de um forte trabalho de mentoria e suporte aos jovens para que as escolhas sejam tomadas com consciência e baseadas em projetos de vida.

Alguns participantes apresentaram como ressalva a essa proposta a possibilidade de se reforçarem as desigualdades. “Será que esse jovem, quando vai escolher essas disciplinas, teria condições de escolher eletivas que não o coloquem dentro de papeis subalternizados, para além das suas próprias referências? E aí fico pensando no papel da escola em definir conteúdos que tornem possível transformar a sociedade”, comentou o educador da ONG Spetaculu, Rogério José.

Para a coordenadora pedagógica da Escola Vera Cruz, Ana Bergamin, “a gente só aprende a fazer escolhas escolhendo”. Ela lembrou que o jovem precisa tomar uma série de decisões importantes ao entrar no mundo adulto e deve, portanto, exercitar isso ao longo do Ensino Médio. “A escolha do curso na ficha do vestibular não pode ser a primeira”, ressaltou.

O tema da diversidade da juventude foi outro ponto de discussão. “O currículo deve se basear nas juventudes – como aprendem, seus interesses, peculiaridades – e considerar as competências essenciais para a sociedade do século XXI”, afirmou a diretora executiva do Instituto Inspirare, Anna Penido.

Para o prof. Carlos Nascimento, da Escola Parque (RJ), “há um conhecimento que os estudantes trazem e que não é reconhecido pela escola”. Nessa linha, o coordenador do Programa Jovens Urbanos, do Cenpec (SP), ressaltou que “é preciso pensar a educação para além da escola, senão vamos reproduzir os muros novamente”. E complementou: “O currículo está nas relações que o jovem pode construir no território, com as potências que estão no local. O grande desafio é pensar os novos modelos na perspectivada juventude e não da escola”.

A demanda por espaços de escuta e diálogo foi reforçada pelos jovens que participaram de uma das rodas. “Que tal se ouvissem mais a gente e implantassem o que a gente propõe?”, sugeriu um dos estudantes.

Colóquio – As discussões das rodas serão sistematizadas e servirão de insumo para elaboração do posicionamento do Instituto Unibanco sobre o currículo do Ensino Médio. Uma segunda rodada de debates está prevista para o dia 19 de novembro, em São Paulo (SP), com a realização de um Colóquio Desafios da Reforma Curricular do Ensino Médio. O evento, fechado para convidados, será restrito a participantes das Rodas de Conversa, além de representantes de organizações parceiras, especialistas, além dos profissionais do Instituto.

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