TOPO

Pesquisa aponta aumento na desigualdade do ensino no Conjunto de Favelas da Maré durante a pandemia

14/03/2022 | Editado em 14/03/2022 09:54

Estudo realizado pela Redes da Maré em parceria com o Instituto Unibanco, investiga os principais impactos da Covid-19 na educação de alunos das escolas públicas localizadas no conjunto das 16 comunidades da Maré

Com o intuito de identificar os impactos causados pelo novo coronavírus na educação de alunos do Ensino Fundamental e Ensino Médio residentes no Conjunto de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro, a organização da sociedade civil Redes da Maré e o Instituto Unibanco realizaram a pesquisa Covid-19 e o acesso à educação nas 16 favelas da Maré: impactos nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio.

Durante seis meses de 2021, foram ouvidas 921 pessoas, entre alunos, responsáveis e profissionais de educação ligados a 18 escolas públicas da Maré, para tentar dimensionar os efeitos da Covid-19, depois de quase dois anos de crise sanitária e de 20 meses de aulas remotas e híbridas. Trata-se de um retrato revelador que, embora seja circunscrito a um território específico, pode servir de bússola para reflexões e ações do poder público neste momento de volta às aulas.

Entre os dados pesquisados, fica evidente a sensação de os estudantes terem perdido dois anos de aprendizagem. Quase três em cada quatro alunos conta que aprendeu pouco (48%) ou nada (26%), somando 74% do total. Mais da metade deles − 57% − afirmou que sua vontade de estudar na pandemia diminuiu (33%) ou diminuiu muito (24%). Os motivos apontados pelos estudantes estão na dificuldade de adaptação ao ensino remoto (35%) e em problemas de aprendizagem (28%).

A pesquisa mostrou também que 38% dos estudantes não acompanharam as atividades remotas. A causa mais citada foi de não ter entendido o que era para ser feito (43%), seguida por falta de internet (22%), de dispositivo eletrônico (18%) e problemas emocionais (15%). Já de acordo com 87% dos profissionais de educação, menos da metade dos alunos aderiram às atividades remotas.

Em termos de saúde mental, 41% dos estudantes afirmaram ter sido afetados – 257 crianças e adolescentes enfrentaram algum tipo de sofrimento psíquico.

“Às vezes dá até vontade de desistir. Não desisti, continuei estudando, só que numa frequência bem menor do que eu estudava quando tinha as aulas”, disse um aluno.

“Eu não consegui, eu não estudei. Eu não vou ser falso, fingir que eu fui um ótimo aluno. Eu estou boiando no 7º ano”, afirmou outro, em testemunhos recolhidos durante a pesquisa, confirmando os números citados acima.

Pouco mais da metade dos profissionais de educação (56%) acredita que será possível reverter os efeitos negativos da pandemia na aprendizagem, por meio da recuperação dos conteúdos, enquanto 44% consideram essa missão impossível. A transformação desse cenário dependeria, segundo os professores, de aulas de reforço (55%); engajamento comunitário e parceria família-escola (48%); estratégias criativas e busca ativa (45%); e parcerias com instituições locais (43%).

Outro dado relevante é que 70% dos profissionais de ensino disseram que sua motivação para trabalhar durante a pandemia diminuiu. Da mesma forma, 72% relataram o agravamento de problemas de saúde mental e emocional. E quase a totalidade dos respondentes (95%) pediu ajuda a colegas ou pesquisou na internet para atuar remotamente.

Complementando esse cenário, o número de crianças e adolescentes moradores da Maré que deixaram de frequentar a escola nos últimos dois anos teve um crescimento grande, como vem comprovando o projeto Busca Ativa, coordenado pela Redes da Maré, que, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, procura alunos fora das salas de aulas.

Instituída em janeiro de 2021 de forma remota e em junho do mesmo ano nas ruas, a iniciativa cadastrou 983 crianças e adolescentes até dezembro. A grande maioria vem de listas fornecidas pelas escolas públicas da Maré, mas nas visitas diárias a equipe de campo formada por seis pessoas acaba descobrindo outros estudantes distantes dos bancos escolares. No entanto, os dados oficiais de evasão ainda não foram mensurados.

Conhecer os dados sobre a educação na Maré torna-se ainda mais importante se entendemos as dimensões populacionais da região. Nas 16 comunidades que compõem o conjunto, segundo o Censo Maré 2019, moravam 139.073 pessoas, em mais de 47 mil domicílios, em uma área com cerca de 4,5km².

Os resultados da pesquisa expõem o enorme desafio das escolas e do poder público neste início de ano letivo, ainda marcado pelas incertezas em relação ao coronavírus, como ressalta Andréia Martins, diretora da Redes da Maré e coordenadora do estudo.

“A pesquisa evidencia o acirramento das desigualdades educacionais de moradores da Maré. Esse cenário só poderá ser enfrentado com uma política educacional robusta, que considere uma perspectiva intersetorial e a participação efetiva dos pais e das instituições locais. Espera-se que, com esse trabalho, possamos trazer à tona questões fundamentais que interferem no desenvolvimento da Maré, mas que também podem ilustrar a realidade de favelas e periferias de diferentes estados brasileiros”, afirma.

Segundo Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco, a pesquisa é fundamental para identificar os principais impactos da crise sanitária na comunidade da Maré e como eles podem ser revertidos.

“O diagnóstico é a primeira etapa para o enfrentamento do problema. Sabemos que os desafios para a Educação no pós-pandemia são enormes, principalmente para aqueles que sofreram maior impacto da crise da pandemia. É importante chamar a atenção para a urgência de promover condições básicas para uma educação de qualidade nessa região, tão abandonada pelo poder público, e ainda mais prejudicada durante a pandemia. Infelizmente, são questões que se repetem e servem de alerta, pois podemos deduzir pelo estudo que outros grandes agrupamentos periféricos das metrópoles do Brasil passam pelos mesmos problemas e requerem atuação urgente e resolutiva do Estado”, explica.

Metodologia

A pesquisa Covid-19 e o acesso à educação nas 16 favelas da Maré: impactos nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio teve início em março de 2021, com coleta de dados até setembro. Inicialmente, foram realizadas 89 entrevistas aprofundadas, com gestores públicos de educação do município e do estado do Rio de Janeiro, profissionais de educação (diretores, coordenadores pedagógicos e professores), responsáveis e alunos, de 18 escolas públicas da região.

Em seguida, foram aplicados 832 questionários:  630 entre alunos, do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e dos 1º, 2º e 3º anos do Ensino Médio; 101 entre responsáveis; e 101 entre profissionais de educação. Nesta fase, a pesquisa concentrou-se em 13 escolas públicas da Maré − nove municipais e quatro estaduais, incluindo estabelecimentos de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e um de Ensino Técnico.

O estudo ainda sistematizou os principais atos normativos editados pelos governos municipal, estadual e federal durante a pandemia e incluiu dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal indicador de qualidade do ensino no país, referente às escolas da Maré. Em 2019, cerca de 20 mil estudantes estavam matriculados nas 50 escolas públicas do conjunto. Naquele ano, as 13 escolas onde foram aplicados os questionários tinham 6.068 estudantes, o equivalente a cerca de 30% do total na Maré.

A íntegra da pesquisa Covid-19 e o acesso à educação nas 16 favelas da Maré: impactos nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio pode ser acessada aqui.

Compartilhe esta notícia!