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Acolhimento socioemocional será fundamental também na retomada das aulas presenciais

07/08/2020 | Editado em 07/08/2020 10:25

A retomada das aulas presenciais, após meses de isolamento e de ensino remoto, quando acontecer, exigirá esforços adicionais dos gestores. Em paralelo aos protocolos de segurança sanitária, que passarão a ditar as regras de convivência nas escolas, será preciso acolher e apoiar estudantes, professores e demais profissionais, incluindo os próprios gestores. Algumas redes de ensino já estão se preparando para promover o chamado acolhimento socioemocional, que deverá ser a primeira atividade na volta às aulas − podendo ocorrer até mesmo durante o ensino remoto e começar pelos diretores de escola e coordenadores pedagógicos, como no Ceará.

O ponto de partida é a escuta: abrir a possibilidade para que todo aluno e todo profissional fale sobre como sua vida foi impactada pela pandemia de covid-19. À medida que o Brasil se aproxima de 100 mil mortos e de 3 milhões de infectados pelo novo coronavírus, é de se esperar que muitas famílias estejam de luto, que outras tantas tenham sofrido com internações hospitalares e parentes doentes, sem falar nos profissionais e estudantes que perderam a vida por causa da doença − e cuja ausência será um desafio a mais na reabertura das escolas.

“Todos tiveram perdas, e não teremos como avaliar essas perdas, se não fizermos esse processo de escuta. De diálogo e de escuta”, diz a psicóloga Paola Lopes, coordenadora de Psicologia Educacional da Secretaria da Educação de Mato Grosso do Sul. “Não tem como entrar direto no conteúdo, sendo que o menino ou perdeu alguém ou está passando necessidade ou não teve acesso a nenhuma atividade remota e está se sentindo atrás na aprendizagem.”

 

Paola é responsável pelo eixo socioemocional do plano de ação para a retomada das aulas presenciais na rede estadual. O primeiro passo, diz ela, será conversar com os professores. Uma semana antes da volta dos alunos, prevista para setembro, os docentes participarão de uma jornada pedagógica. A ideia é dividir os profissionais em grupos, de modo que todos possam compartilhar suas vivências dos últimos meses.

“Só escuta quem já foi escutado em algum momento”, observa Paola. “E os professores precisam ser acolhidos: são eles, depois, que estarão frente a frente com os alunos.”

Gestores

No Ceará, a rede estadual – parceira do programa Jovem de Futuro, do Instituto Unibanco – nem esperou o retorno das aulas presenciais. Durante o ensino remoto, criou uma força-tarefa com psicólogos da Secretaria da Educação para dar apoio socioemocional a diretores e coordenadores pedagógicos. A preocupação do Ceará com o tema é até mesmo anterior à pandemia, e a rede teve apoio do Instituto Ayrton Senna.

“Quem mais vai precisar estar preparado é o gestor, que é quem vai orquestrar o trabalho”, explica Iane Nobre, coordenadora de Gestão Pedagógica do Ensino Médio na Secretaria da Educação do Ceará.

Em julho, gestores participaram do primeiro encontro com psicólogos da rede, por videoconferência. As sessões deverão ser realizadas quinzenalmente. Segundo Iane, a rede conta com 30 psicólogos espalhados pelas regionais de ensino. Diante da retomada das aulas presenciais, ainda sem data definida, a secretaria sentiu necessidade de reforçar a preparação para o acolhimento socioemocional de toda a comunidade escolar, começando por diretores de escola e coordenadores pedagógicos.

Os psicólogos foram, então, remanejados para auxiliar os gestores ainda no período de ensino remoto.

“Além de ouvir e acolher os gestores nos próprios medos e incertezas da pandemia, os psicólogos vão ajudá-los a se preparar para conduzir o acolhimento”, diz Iane.

As atividades de escuta na rede cearense serão feitas remotamente no período de ensino a distância e, depois, terão continuidade no ensino presencial. Iane lembra que a rede estadual já trabalha questões socioemocionais no currículo. Assim, a ideia é que o acolhimento seja permanente e não uma ação isolada.

O plano tem outra inovação: alunos dos grêmios estudantis e representantes de turma estão recebendo formação específica para auxiliar as escolas na recepção aos colegas. Iane descreve a lógica do plano:

“Os psicólogos acolhem os gestores, os gestores acolhem os professores e funcionários e os professores e funcionários acolhem os estudantes, com apoio dos gremistas e representantes de turma”, diz ela.

A coordenadora menciona pelo menos duas fontes de angústia para a comunidade escolar:

“O reencontro será positivo, mas vai trazer as dores de muitos lutos: pessoas que perderam familiares, entes queridos, colegas de trabalho. Pessoas que estão doentes. É uma coisa que entristece, amedronta, faz as pessoas não quererem sair de casa”, diz Iane.

A outra diz respeito à parcela dos professores que têm dificuldade para lecionar remotamente. “Professores que nunca mexeram com tecnologia antes e que agora estão precisando ser experts para se articular com os estudantes a distância. Eles se angustiam, porque querem fazer o trabalho, mas não têm as condições.”

 

Atenção

Em Mato Grosso do Sul, a coordenadora Paola enfatiza a importância de que a escuta seja empática, isto é, que os gestores e demais envolvidos no acolhimento tenham a capacidade de se pôr no lugar do outro. E enfatiza que será preciso ficar atento ao comportamento dos profissionais e estudantes, para avaliar quem pode necessitar de apoio psicológico ou assistencial − o que exigirá articular esforços com as áreas da saúde e da assistência social.

Comportamentos autolesivos (um aluno que se corta propositalmente) e processos depressivos devem estar no radar das equipes de acolhimento. Assim como alunos em situação financeira precária, devido ao desemprego e ao desaquecimento da economia. “Vai ter gente que vai estar mais ansiosa, que vai chamar a atenção ou que vai pedir ajuda”, afirma Paola.

O formato do acolhimento aos estudantes deverá ser adaptado à faixa etária. Ela recomenda que as dinâmicas de grupo também tenham a função de reforçar as novas regras de conduta previstas nos protocolos de segurança.

“É a hora de falar sobre como a escola vai funcionar e de reforçar os combinados.”

Na rede sul-mato-grossense, as escolas terão autonomia para implementar as estratégias de acolhimento.

“Não sei como essa meninada vai voltar, pode ser que nos surpreendam. A gente vai dar um norte, mas cada escola vai ter que fazer a sua adaptação”, conclui Paola.

No plano de ação preparado pela Secretaria da Educação, o eixo socioemocional contempla cinco áreas: período de adaptação, saúde mental, rede socioassistencial, saúde mental da equipe educacional e construções colaborativas com pais ou responsáveis.

Espírito Santo

 O estado emocional de professores e estudantes na reabertura das escolas é motivo de preocupação no Espírito Santo, outro estado parceiro do Jovem de Futuro. A ideia é que os diretores escolares façam a recepção aos docentes logo na primeira semana.

“É importante entender como os profissionais vivenciaram o isolamento, se perderam entes queridos, além de reconhecer o trabalho dos professores nesse período não presencial”, diz a psicóloga Priscila Maria do Nascimento Pereira. “Vai ser chave para o retorno que o diretor faça esse acolhimento com empatia, possibilitando a escuta e reforçando a relação de confiança.”

Priscila coordena o projeto Apoie, uma iniciativa da Secretaria de Educação capixaba cuja sigla quer dizer Ação Psicossocial e Orientação Interativa Escolar. O projeto foi criado em 2019 para ajudar as escolas em temas como bullying, comportamentos autolesivos e prevenção ao suicídio. Na pandemia, o Apoie formulou as diretrizes socioemocionais para a volta às aulas. A equipe é formada por uma assistente social e uma pedagoga, além da psicóloga.

Estudantes e a covid-19

O acolhimento aos alunos no Espírito Santo seguirá a mesma lógica da recepção aos professores:

“Esse acolhimento tem que ser permanente, e a escola terá que ter um pouco de paciência com os estudantes: escutá-los atentamente e observar não só a progressão pedagógica, mas como vão chegar emocionalmente. É natural que tenham estresse emocional”, diz Priscila.

Com as escolas focadas na prevenção da covid-19, ela alerta para o risco de novas formas de bullying. O receio é de que colegas possam reagir de maneira inadequada diante de um aluno ou profissional que esteja espirrando ou tossindo, já que esses são sintomas associados ao novo coronavírus.

“Será preciso um olhar mais cuidadoso para as práticas de bullying, para a estigmatização de vítimas da covid ou para a culpabilização”, diz a psicóloga. “Como a escola vai lidar com o aluno que tiver febre, que estiver tossindo? Há o cuidado relacionado à biosseguranca e o cuidado para que outros alunos não estigmatizem o colega com base em algo que não é real.”

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