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Pandemia elevou sobrecarga de trabalho das mulheres na educação

12/03/2021 | Editado em 15/03/2021 10:05

“A pandemia tornou claro que esta crise é uma crise das mulheres. (…) o fardo do trabalho doméstico que já era feito, em larga medida, por mulheres, também ganhou outras dimensões, como conciliar a telescola e o teletrabalho. E, no mercado de trabalho, eram, e são, as mulheres as heroínas da sociedade que estão na linha da frente: 75% dos empregos com relevância sistémica são levados a cabo por mulheres, de hospitais a lares, professoras, empregadas de limpeza e lojistas”, declarou Lusa Evelyn Regner, presidente da Comissão dos Direitos das Mulheres e da Igualdade de Gênero do Parlamento Europeu, à agência de notícias portuguesa.

A fala refere-se ao contexto europeu e baseia-se em dados do recém divulgado “Relatório de 2021 sobre a igualdade de gênero na UE”, mas também se encaixa na realidade das mulheres brasileiras. Assim como outras desigualdades, a pandemia também evidenciou a desigualdade de gênero no Brasil e no mundo. Além do aumento da violência doméstica, subnotificada em função do isolamento imposto às vítimas, o que se observou durante a pandemia foi o acúmulo da atividade profissional com os cuidados da casa, dos filhos ou de outros dependentes no cotidiano das mulheres.

A chamada “dupla jornada”, que consiste na responsabilidade pelo trabalho remunerado e pelas atividades domésticas, já era enfrentada pelas profissionais mulheres antes da pandemia: segundo dados de Informe da ONU Mulheres, em 2019, as brasileiras ocupadas dedicaram em média 8,1 horas semanais a mais às atividades de afazeres e/ou cuidados que os homens ocupados.

Com a pandemia, esse quadro se agravou, já que as mulheres precisaram incorporar outras tarefas à sua rotina. Segundo a pesquisa “Sem Parar: O trabalho e a vida das mulheres na pandemia”, realizada pelas organizações Gênero e Número e Sempreviva, metade das mulheres brasileiras passou a cuidar de alguém durante a pandemia (filhos, idosos, pessoas com deficiência ou outras crianças). Dessas, 42% não têm apoio externo, como profissionais, instituições ou vizinhos. Entre as mães, metade (49%) afirmou que aumentou a necessidade de auxiliar os filhos de até 12 anos nas atividades educacionais on-line. Responderam ao questionário online do estudo, disponibilizado entre abril e maio de 2020, 2.641 mulheres de todas as regiões do Brasil, em área urbana e rural.

Impactos entre as profissionais da educação

No meio educacional, uma atividade majoritariamente exercida por mulheres, não foi diferente. Professoras, diretoras, coordenadoras pedagógicas tiveram que adaptar suas rotinas ao trabalho remoto e conciliar a atividade profissional com os afazeres domésticos (limpar, cozinhar) e o cuidado dos filhos.

A primeira etapa da pesquisa “Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil”, realizada pelo Instituto Península logo no início da pandemia (entre março e abril de 2020), já apontava o impacto do fechamento das escolas na rotina das docentes (que representavam 60% da amostra): 70% afirmaram estar dedicando mais tempo à vida pessoal e familiar, incluindo as questões do lar. Duas em cada três (67%) afirmaram estarem se sentido “ansiosas”, 35%, “sobrecarregadas” e 27%, “frustradas”. Na última etapa da pesquisa, que ouviu professores em novembro, o sentimento de sobrecarga aumentou para 57% da amostra (dessa vez composta por 80% de mulheres); mais da metade (53%) também alegou estarem se sentindo “cansadas”.

Marcela Cavati Lodi Angeli

Em Santa Teresa (ES), a gestora Marcela Cavati Lodi Angeli, 37, da EEEFM José Pinto Coelho, estava em licença maternidade quando estourou a pandemia e a escola foi fechada. Em casa, se virou para dar conta dos cuidados com a bebê, cozinhar, limpar a casa e acompanhar o ensino remoto das filhas de 7 e 10 anos. Quando reassumiu suas funções em junho, passou a ir para escola diariamente e se concentrar nos preparativos para retomada das aulas presenciais, que ocorreu no fim do ano passado. Com isso, voltou a contar com apoio da empregada nos afazeres domésticos e no cuidado da prole, mas agora só durante os finais de semana consegue dedicar atenção aos estudos das filhas. Com a reabertura parcial das escolas, intercala sua presença na escola nos três períodos (manhã, tarde e noite) com a logística de levar e buscar as pequenas na escola.

Marcela relata que a adaptação ao trabalho remoto “foi uma mudança muito radical” e, assim como no caso dos professores, também exigiu que a gestão se reinventasse. Mas como só retomou as suas funções meses após o início da pandemia, “estava afetivamente mais tranquila, não estava tão desgastada como as pessoas que estavam na educação estavam”. Por conta disso, acha que conseguiu fazer um trabalho atento de escuta da equipe.

“Na equipe da nossa escola, entre 60 e 70% são mulheres, a maioria mães, que tinham uma vida fora e que adentrou seus lares. Então, a gente teve um olhar muito carinhoso em relação a isso”, afirma. “Meu foco em 2020 foi tentar acolher, ouvir os professores, para que eles fizessem a mesma coisa com os alunos. Eles são nossa ponte para os alunos. Se a gente consegue motivar eles, eles automaticamente motivam os alunos”, acredita.

“Um momento muito difícil que a nossa escola passou foi a perda de uma professora, que pertencia ao grupo de risco e estava afastada, por Covid. “A Secretaria Estadual de Educação tem um projeto, o Apoie, com psicólogas e assistentes sociais que ajudaram muito a gente, fizeram um momento de reflexão, e que uniu ainda mais a gente enquanto escola”, considera.

Diretora Clarisse Veloso, de Teresina (PI) (Foto: Arquivo pessoal/2019)

Em Teresina (PI), a gestora Clarisse Veloso, 43, do CETI Maria Modestina Bezerra, também precisou conciliar os afazeres domésticos, a atividade profissional e o acompanhamento do ensino remoto do filho de 14 anos, Luiz Fellipe. Conta com os serviços de uma pessoa que cuida da limpeza, que antes trabalhava diariamente e com a pandemia passou a ir duas vezes na semana.

“Mas a comida sempre fui eu que fiz”, ela frisa. Para dar conta, quando chega em casa às 21h, já deixa encaminhado o almoço do dia seguinte. Como a escola pela qual responde pela gestão funciona nos três turnos, ela alterna idas e vindas entre casa e trabalho ao longo do dia para conseguir acompanhar os estudos do filho, levá-lo e buscá-lo na escola nas semanas em que ele tem aulas presenciais e servir as refeições.

Ela conta que a adaptação do trabalho da gestão também não foi fácil. “A escola tinha 8 salas no período da manhã, mais 3 à tarde e 4 à noite. Cada sala dessa a gente teve que criar um grupo de whatsapp e eu participava de todos para poder acompanhar as aulas, as demandas dos alunos”, afirma.

“Organizar o tempo para tomar conta desses grupos, dar um apoio e ao mesmo tempo cuidar da casa, da rotina do meu filho foi bem estressante. E veio acompanhado de todas as incertezas que a gente tem até hoje, do medo de pegar essa doença, de alguém da família ser contaminado…”, ressalta.

Desfile da escola em comemoração ao 7 de setembro de 2019

A equipe da escola é composta por mais de 70% de mulheres, mães e donas de casa. “A gente vê a correria de todas as meninas que trabalham com a gente, na coordenação, na secretaria, auxiliares. Essa luta tem sido grande”, comenta.

Maior equilíbrio no futuro?

Embora os serviços domésticos e o cuidado com os filhos ainda recaiam principalmente sobre as mulheres, a pandemia evidenciou essa sobrecarga feminina e levantou o debate sobre a necessidade de uma divisão mais equilibrada das tarefas entre homens e mulheres.

O National Bureau of Economic Research (NBER), organização de pesquisa sediada em Nova Iorque, publicou um paper em abril de 2020 sobre o impacto da Covid-19 na igualdade de gênero. A partir do que aconteceu após a Segunda Guerra Mundial, elencam algumas mudanças decorrentes da pandemia nas dinâmicas familiares e que podem ter efeitos de longo prazo nas normas sociais e culturais. Eles citam estudos que mostram que meninos que cresceram em famílias onde as mães também trabalhavam tendem a se casar com mulheres inseridas no mercado de trabalho. Acrescentam ainda que esses garotos observaram um compartilhamento de tarefas entre seus pais mais igualitário em casa e no trabalho do que aqueles que cresceram em lares onde há apenas um provedor – o que acaba impactando o que desejam para suas próprias famílias.

Os autores acreditam ainda que o fato de os homens estarem passando mais tempo em casa tende a aumentar suas responsabilidades em relação aos cuidados com os filhos, especialmente no contexto da pandemia, em que as creches e escolas estão fechadas e eles demandam muito mais atenção.

Para a diretora Marcela, a pandemia revelou que em algumas famílias essa movimentação já existe. Em sua própria casa, ela conta que como trabalha de noite também, é o marido quem dá conta da casa e das filhas nesse período. “Ele dá o jantar para as meninas, troca a menor, só não sabe cozinhar”, diz. Também relata ter na equipe professores cujas esposas trabalham à noite e trabalhavam nos três turnos, mas no ano passado solicitaram uma readequação da carga horária para poderem ficar em casa à noite com os filhos. “Eu sinto uma movimentação nesse sentido de que família é família”.

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