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Pandemia tem impactos que vão além da perda de aprendizado entre meninas

08/03/2021 | Editado em 15/03/2021 11:30

Uma das constatações mais repetidas nas análises sobre o impacto da pandemia na educação é a de que ela agravou desigualdades já existentes, afetando de forma mais severa grupos que já apresentavam maior vulnerabilidade social. E uma das preocupações de diversas organizações e organismos internacionais tem sido os efeitos negativos entre as meninas. Em março de 2020, quando 185 países já haviam fechado suas escolas para conter a disseminação do novo coronavírus, a Unesco alertou para o risco potencial de evasão acentuado entre as meninas, aprofundando as desigualdades de gênero e expondo-as ainda mais à exploração sexual, gravidez indesejada e casamentos arranjados.

O Center for Global Development, organização estadunidense voltada à produção de pesquisas que contribuam com a redução da pobreza e o desenvolvimento global, mapeou alguns dos possíveis impactos da pandemia na vida das meninas, com base em episódios anteriores de fechamentos de escolas ocasionados por outras crises (como a da epidemia de Ebola), como perda de aprendizagem, evasão, gravidez indesejada e aumento do risco de violência. A instituição também elenca estudos que se debruçaram sobre a questão da evasão escolar entre as estudantes. Dentre as pesquisas que apontam que estão elas tendem a evadir mais que os garotos, estão a realizada pelo próprio CGDev junto a representantes governamentais e de organizações que atuam nas áreas de educação e saúde de 32 países. Um estudo coordenada pelo Malala Fund também destaca esses riscos.

A Plan International divulgou em setembro do ano passado estudo em que foram ouvidas 7 mil jovens com idades entre 15 e 19 anos em 14 países, incluindo o Brasil. Seis em cada 10 entrevistadas disseram que estavam tendo dificuldades por não poderem ir à escola ou à universidade; quase todas (88%) alegaram estar sentindo níveis altos ou médios de ansiedade como consequência da pandemia.

No Brasil pré-pandemia, as estatísticas de evasão apontavam para taxas de evasão maiores entre meninos. No entanto, a sobrecarga de tarefas domésticas é identificada como um fator que prejudica mais as meninas, aumentando o risco de abandono escolar. Há também outras situações que afetam desproporcionalmente as estudantes mulheres.

“Para as meninas, os riscos de ficar em casa são maiores. Esta situação afeta sua saúde mental e as coloca em risco de violência doméstica. Por causa das normas sociais patriarcais, que ditam que as meninas devem assumir a grande maioria do trabalho doméstico não remunerado, existe uma ameaça real de que elas sejam obrigadas a abandonar a escola e que fiquem sem estudar”, afirma Anne-Birgitte Albrectsen, CEO da Plan International.

A realização de tarefas domésticas pelas meninas já era uma realidade antes da pandemia e que se exacerbou com ela. Outra pesquisa da Plan International, divulgada em 2015, constatou que 65% das meninas eram responsáveis por limpar a própria casa, enquanto somente 11% dos meninos tinham a mesma obrigação. O relatório observava ainda que meninas que se dedicam a uma carga pesada de trabalhos domésticos não remunerados têm menores índices de escolaridade do que outras meninas.

Durante sua participação em um dos webinários promovidos pelo Instituto Unibanco no ano passado, a jovem Emily Araújo da Silva, estudante do ensino médio da rede pública do estado do Espírito Santo, relatou que precisava conciliar os cuidados da irmã mais nova e da casa e os estudos. Numa rotina bastante atribulada, a estudante dava conta de cozinhar, arrumar a casa, cuidar da irmã, que estava em processo de alfabetização, e auxiliá-la nos estudos e só no período da tarde conseguia se dedicar aos estudos. Quando a escola ainda estava funcionando, acordava às 4h30 da manhã para poder pegar o ônibus das 5h30 e chegar na escola por volta das 7h10. Agora em 2021, Emily segue os estudos em regime híbrido, além de estagiar durante a semana e trabalhar nos fins de semana. Também continua com afazeres domésticos mas agora da própria casa, que divide com o namorado.

Confira o vídeo em que Emily relata sua rotina de estudos em 2020 e seus planos para o futuro:

Falta de conectividade e crise econômica

Com o objetivo de identificar como estava se dando o processo educativo de meninas e mulheres no Complexo da Maré (conjunto de 16 favelas da capital fluminense ondem vivem 139 mil pessoas), a Redes da Maré, organização que desenvolve projetos sociais na região, realizou no segundo semestre de 2020 uma pesquisa que envolveu a participação de 1.009 moradoras, a partir dos 6 anos de idade, matriculadas em escolas de ensino regular ou em projetos educacionais na região.

A falta de conectividade e de acesso à internet e a equipamentos eletrônicos, como celulares, tablets e computadores aparece no levantamento como um dos principais entraves para o acompanhamento das atividades escolares não presenciais, confirmando o problema já apontado em outros levantamentos, como a pesquisa Datafolha. No estudo feito pela Redes da Maré, cerca de um quarto não tem celular (24%) e 14% tem o aparelho mas sem acesso à rede. E embora 61% das respondentes tenham assinalado contar com celular e conexão à internet, a coordenadora do estudo, Andreia Martins, destaca a má qualidade do serviço prestado pelas operadoras na região e relata que a maioria dos moradores tem pacotes limitados de uso de dados, que muito frequentemente não chegam até o final do mês.

Uma das consequências desse acesso à internet precário é que a frequência que as estudantes conseguem manter para estudo em casa é menor que a que manteriam se estivessem frequentando as aulas presenciais. A maioria das estudantes, 37,4%, se dedicam aos estudos entre 3 e 4 dias por semana; 34%, até dois dias por semana.

Rebecca Lorindo, 17, jovem moradora do Complexo da Maré e aluna de uma das escolas estaduais da região, conta que enfrentou não só dificuldades tecnológicas, mas de falta de apoio pedagógico para dar continuidade aos estudos em 2020, quando cursou o 1º ano do Ensino Médio. “Estava me adaptando às novas matérias, como Química, que a gente não tem no Ensino Fundamental quando começou a pandemia”, relata.

“Até outubro mais ou menos, eu fiquei muito focada na plataforma [de ensino remoto], mas depois fui desanimando porque eu colocava as dúvidas lá, mas os professores não respondiam, e eu fui deixando de lado, mas mesmo assim passei para o segundo ano”, afirma.

Sobre a qualidade da internet, ela confirma que o sinal é ruim. Por conta disso teve bastante dificuldade com o ensino remoto e chegou a perder o prazo de entrega de algumas atividades em algumas ocasiões. Em função disso, optou esse ano por pegar as atividades impressas na escola. A escola em que estuda fará a recuperação das aprendizagens do 1º ano até maio para só depois entrar nos conteúdos do 2º ano. “Tenho 12 apostilas de 12 matérias diferentes para entregar até dia 15”, explica, preocupada.

Rebecca concilia os estudos com o trabalho como jovem aprendiz e as tarefas domésticas, mas reconhece que outras colegas enfrentaram adversidades ainda maiores para dar continuidade à sua formação.

“Minha realidade não foi tão difícil como a de muitos jovens. Não tenho irmão pequeno, nem filhos para cuidar. Mas muitas amigas têm filho e não conseguiram estudar”, conta.

Em Teresina (PI), a gestora Clarisse Veloso, do Centro Estadual de Tempo Integral Maria Modestina Bezerra, de Teresina (PI), afirma que a pandemia “afetou e muito” as meninas.

“Hoje a gente já tem aula pelo Google Meet e algumas alunas às vezes não assistem e a gente entra em contato com elas e pergunta. Uma delas me mandou mensagem falando que estava com o pai, ajudando-o em uma venda de uma feira e por isso não tinha assistido a aula. Uma outra disse para mim que estava cuidando do irmão menor e que ele fazia muito barulho e por isso não conseguia participar da aula. Já fizemos reuniões com os pais para falar da importância do momento da aula, que o aluno tem que participar”.

A diretora explica que o problema da falta de acesso ao ensino remoto está sendo superada pela rede estadual por meio da distribuição aos estudantes de chips, já realizada, e de tablets, prevista para as próximas semanas. Mas o impacto da crise econômica gerada pela pandemia nas famílias se apresenta como outro entrave para a continuidade dos estudos pelas meninas.

“A gente se depara com a situação de que muitos pais estão trabalhando em outras funções, muitos perderam o emprego e estão tendo outras ocupações, como trabalhar de uber, fazer faxina, e acabam deixando a casa e os filhos menores para as filhas tomarem conta”, analisa.

Recomendações

Ao apontar os impactos da pandemia na educação de meninas, especialistas e organizações têm ressaltado a importância de algumas ações por parte do poder público visando mitigar o problema. Assegurar o acesso à informação e recursos para sua saúde sexual e reprodutiva, a criação de redes de proteção social para evitar o ingresso no mercado de trabalho e a realização da busca ativa dessas estudantes são algumas das recomendações feitas no paper da CGDev mencionado anteriormente.

O estudo produzido pelo Malala Fund e também citado no início deste texto lista as seguintes prioridades estratégicas na mitigação dos efeitos da pandemia na educação das meninas: assegurar que as garotas continuem aprendendo mesmo durante o período em que as escolas estão fechadas; considerar as questões de gênero no processo de planejamento de reabertura das escolas; manter o financiamento do sistema educacional e se certificar que ele beneficiará meninas e meninos igualmente.

A pesquisa da Redes da Maré destaca a necessidade de “exigir das concessionárias de telefonia facilidade de acesso à internet de qualidade”, “criar alternativas pedagógicas para estudantes sem acesso à internet” e “investir na formação de professores para melhor atuação durante a pandemia”, ente outros pontos.

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