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Aumento de tempo on-line requer atenção dos gestores para o tema da cidadania digital

06/05/2020 | Editado em 26/06/2020 16:19

A suspensão das aulas presenciais em função da covid-19 levou milhões de estudantes a usarem com intensidade nunca antes vista ferramentas de educação a distância. Como se não bastasse o isolamento social − por si só, um estímulo para se ficar horas na internet −, crianças e adolescentes agora acessam aplicativos e redes sociais também para ter aula. É tanta gente o dia inteiro na tela do computador, do celular ou do tablet que as escolas devem, mais que nunca, ajudar seus alunos a lidar com os desafios do mundo digital. 

Uma primeira orientação aos gestores escolares é estabelecer, de imediato, uma política de uso dos ambientes virtuais de aprendizagem. O passo seguinte é comunicar as regras não apenas aos alunos, mas também a suas famílias. “É preciso que o estudante saiba atuar e se portar como cidadão dentro desses espaços”, diz Julci Rocha, que é diretora da Redesenho Educacional, empresa que presta assessoria para a formação de profissionais da educação.  

Ela lembra que a conduta dos estudantes − assim como a dos professores e demais internautas − deve considerar a chamada netiqueta, isto é, a ética na internet. A começar por uma postura respeitosa, que reconheça o outro.  

E nunca é demais enfatizar que as regras de convivência na sala de aula valem também para a interação on-line. “A escola deveria começar discutindo isso do ponto de vista educativo e disciplinar”, afirma Julci Rocha, lamentando que a falsa sensação de anonimato propiciada pelos meios digitais dê origem a comportamentos indevidos.  

Guia 

Redes públicas que já migraram para soluções de ensino a distância que possibilitam maior interação com os alunos têm também enfrentado problemas de indisciplina que foram transpostos do ambiente presencial para o online. Dar voz aos estudantes potencializa o ensino nessas condições. De um lado, é importante que as turmas possam esclarecer dúvidas durante as aulas. De outro, professores também se beneficiam do feedback dos alunos para saber como está o nível de atenção. Mas há riscos de má conduta e de ruídos, e é preciso ter estratégias para amenizar esses problemas. 

A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, por exemplo, incluiu orientações sobre comportamento on-line em um guia dirigido aos estudantes e às suas famílias. O documento estimula a participação e estabelece “regras de convivência”. Entre elas, a possibilidade de que conteúdos indevidos sejam apagados e usuários, excluídos.  

As regras de convivência do Guia de Utilização do Centro de Mídias da Educação de São Paulo são: 

1 − Não desrespeitar professores e colegas; 
 

2 − Não compartilhar informação pessoal e/ou íntima; 
 

3 − Não publicar informações que não sejam relacionadas ao conteúdo da aula; 
 

4 − Não utilizar os recursos do aplicativo de forma ilegítima, obscena, difamatória, ameaçadora, intimidadora, assediante, odiosa, ofensiva em termos raciais ou étnicos, que instigue ou encoraje condutas ilícitas ou inadequadas, inclusive a incitação a qualquer crime; 
 

5 − Não enviar comunicações ilícitas ou não permitidas, mensagens em massa, mensagens automáticas e afins, ou envolvendo declarações falsas, incorretas ou enganosas; 
 

6 − Não fornecer o usuário e a senha de acesso a ninguém. 
 

Cyberbullying 

Com tantos adolescentes e crianças conectados, é preciso ficar atento ao cyberbullying, problema que preocupa gestores no Brasil e em outros países. Recentemente o Ministério da Educação de Portugal compartilhou uma cartilha com instruções práticas de prevenção e enfrentamento.  

O texto define cyberbullying como o “uso da tecnologia para assediar, ameaçar, provocar, humilhar ou embaraçar alguém (um colega de escola, professores ou desconhecidos), de forma repetitiva e intencional”. Isso pode ocorrer por meio de mensagens privadas, endereçadas à vítima ou a colegas (falando mal da vítima), e em espaços coletivos, como chats ou páginas falsas criadas em nome da vítima.  

Entre as recomendações para se evitar esse tipo de violência virtual, estão desde medidas triviais, como proteger as próprias senhas e ter cuidado para não abrir mensagens de remetentes não identificados, até criar o hábito de pensar duas vezes antes de fazer qualquer publicação, seja de texto, foto ou vídeo, considerando o eventual risco de prejuízos à própria imagem − hoje ou no futuro. 

A cartilha foi elaborada pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e contém orientações para vítimas de cyberbullying. Uma delas é que, diante de um incidente isolado, o melhor é ignorá-lo, já que qualquer resposta pode servir de estímulo a novas agressões. Caso os ataques persistam, porém, a vítima deve relatar o caso a alguém em quem confia (pais, professor ou outro adulto). De maneira respeitosa, deve também pedir ao agressor que pare com os insultos. Se isso não der certo, a recomendação é que a vítima guarde provas, bloqueie o acesso de quem a está importunando e procure a polícia, se considerar que sua segurança está em risco. 

Por fim, a cartilha portuguesa pede que testemunhas virtuais denunciem os abusos: “Na verdade, existem muito mais pessoas que assistem à situação de cyberbullying do que pessoas vítimas de cyberbullying”, diz o texto. E acrescenta: “Todos os ambientes on-line respeitáveis têm regras contra o cyberbullying e possuem sistemas para realização de denúncias. (…) O site/app/jogo resguardará a tua identidade.” 

Respeito 

A consultora Julci Rocha também recomenda que os educadores promovam discussões sobre valores e habilidades socioemocionais para enfrentar o cyberbullying. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), referência para a elaboração dos currículos da educação básica no Brasil, define as competências gerais que devem ser desenvolvidas pelos estudantes: “Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos (…)”, diz a competência geral de número 9. 

Em outra frente, ela sugere que sejam tomadas ações similares às do período de aulas presenciais: conversar separadamente com os estudantes e, se necessário, chamar os pais (por telefone ou videoconferência). Em casos mais graves, é importante retirar o aluno do ambiente virtual até que a situação seja controlada. “O que não dá é para ter cyberbullyng durante uma semana e ninguém tomar uma atitude”, resume a consultora. 

Confira o depoimento de Julci Rocha.

A Safernet, uma organização sem fins lucrativos que promove os direitos humanos on-line, alerta para a necessidade de que os projetos pedagógicos promovam “o debate contínuo sobre cuidados no uso da internet, desinformação, privacidade, discriminação e saúde emocional no contexto digital”, conforme texto divulgado em seu portal. A entidade oferece um curso a distância gratuito para gestores: Educando para boas escolhas on-line. Com duração de 40 horas, o curso tem quatro módulos: direitos e deveres on-line, cyberbullying, sexualidade on-line e segurança digital. 

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