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Avaliação diagnóstica deve orientar ações de recuperação na retomada

22/07/2020 | Editado em 22/07/2020 18:41

Gestores e equipes pedagógicas já discutem estratégias para receber os estudantes e sanar as defasagens

Um dos desafios da retomada das aulas presenciais será a recuperação da aprendizagem, após meses de ensino remoto. Ainda mais que uma parte dos alunos, por motivos diversos, não acompanhou as atividades a distância. Por isso, gestores e equipes pedagógicas já discutem estratégias para receber os estudantes e sanar as defasagens.

A necessidade de ofertar aulas de recuperação não chega a ser novidade. O que não se sabe ainda, contudo, é o tamanho do impacto causado pela suspensão das aulas presenciais.

Daí que uma das primeiras recomendações aos gestores seja promover uma avaliação diagnóstica dos estudantes, com o intuito de aferir os níveis de aprendizagem até o momento.

“O resultado da avaliação será o insumo para consolidarmos o planejamento da recuperação”, diz Nadya Dutra, secretária adjunta de Gestão da Rede de Ensino e da Aprendizagem do Maranhão.

A rede maranhense planeja uma avaliação diagnóstica conjunta de Língua Portuguesa e Matemática para todos os alunos já em agosto, após o reinício das aulas presenciais. No caso do Ensino Médio, eles também farão exames nos demais componentes curriculares. Nesse caso, porém, cada escola ficará responsável por elaborar as provas. O governo estadual considera a avaliação diagnóstica tão importante que decidiu disponibilizá-la, no caso de português e matemática, para todas as redes municipais. Está prevista também uma segunda rodada de avaliação, para verificar o andamento da recuperação.

Nadya lembra que a suspensão das aulas presenciais afeta os estudantes de maneiras diferentes, já que há escolas que conseguiram avançar mais ou menos no ensino remoto. As situações podem variar desde alunos que ficaram privados de qualquer contato com a escola e, portanto, terão um longo caminho a percorrer na retomada do ensino presencial, até o caso de quem conseguiu acompanhar regularmente as aulas remotas.

“É difícil ter uma métrica neste momento. No retorno é que vamos fazer essa avaliação e ter clareza da situação”, afirma a secretária adjunta. “Tivemos mais de 60% das escolas participando (do ensino remoto), mas precisamos ver qualitativa e quantitativamente como foi essa participação.”

É justamente por causa da diversidade de cenários que a recuperação das aulas na rede maranhense deverá levar em conta a realidade de cada escola. A ideia é dar autonomia aos gestores locais para planejar as atividades.

Em princípio, adianta Nadya, haverá uma combinação de aulas de recuperação presenciais e remotas. Uma possibilidade é que as aulas de recuperação sejam ministradas no contraturno ou aos sábados. Nas escolas onde não houver salas disponíveis para isso, no entanto, a estratégia terá de ser outra. “Vai depender dos protocolos de biossegurança: se a escola não tiver espaço para garantir o distanciamento mínimo dos alunos, vai ser impossível ter recuperação presencial.”

Disparidades

Em Alagoas, cada escola da rede estadual ficará responsável por promover a sua própria avaliação. A secretária da Educação, Laura Cristiane de Souza, diz que é necessário levar em conta as disparidades entre os estabelecimentos ensino.

“Não vai ser avaliação com prova igual para toda a rede, em função das diferenças de território e de ritmo das escolas”, afirma Laura. “Porque algumas têm condição de avançar com essas atividades remotas, e outras não. A gente sabe que há escolas que não têm conseguido avançar, por conta das condições da comunidade onde estão inseridas. Então, haverá um conjunto de escolas que vai estar bem mais deficiente.”

A secretária de Alagoas adianta que a primeira semana da volta às aulas será dedicada ao acolhimento dos professores, ainda sem a presença dos alunos. Entre os temas a serem debatidos com os docentes está a avaliação diagnóstica. A premissa é que todos os passos nesse período de retomada do ensino presencial devem ser dados com muito diálogo, envolvendo os profissionais da educação e, em seguida, os estudantes e suas famílias.

Considerando que as turmas serão divididas, de maneira que uma parte dos alunos assista às aulas presenciais, enquanto outra fica em casa, haverá uma mescla de atividades remotas e na escola. “Estudantes que estejam com deficiência de aprendizagem vão ter momentos presenciais em maior quantidade do que aqueles que tiverem avançado mais”, diz a secretária de Alagoas.

No Distrito Federal, a rede pública também deixará as avaliações diagnósticas nas mãos de cada escola. Estão previstas aulas de recuperação presenciais no contraturno das aulas, exceto se houver restrições em função da pandemia. De acordo com a Secretaria de Educação do DF, todo o esforço de retomada das aulas presenciais terá o objetivo de garantir a aprendizagem e a recuperação de conteúdos.

Uma das estratégias do DF é a mesma da rede maranhense: transformar os anos letivos de 2020 e 2021 em um único ciclo, a fim de dar mais tempo às escolas para fazer a recuperação. A Secretaria do DF esclareceu como funcionará cada ciclo: “Um estudante no final da alfabetização, por exemplo, no 3º ano do Ensino Fundamental, seguirá para o 4º ano em 2021, porém, terá reforço na alfabetização durante todo o próximo ano de estudos. E assim deverá ocorrer para todas as etapas de ensino.” Alunos do 3º ano do Ensino Médio também terão a opção de continuar na escola em 2021, matriculando-se voluntariamente num 4º ano que será ofertado de maneira extraordinária.

Ensino remoto como aliado

A consultora Julci Rocha, que é também gestora do Centro de Mídias da Educação de São Paulo (CMSP), considera imprescindível a avaliação diagnóstica.

“É a primeira ação, a mais importante: avaliar, mapear o que aconteceu e com quem, e aí planejar as atividades didáticas a partir desse mapeamento”, diz Julci, que é diretora da Redesenho Educacional, assessoria de formação de professores e gestores com foco em inovação pedagógica e tecnologias.

O ensino remoto deve ser um aliado na recuperação, diz Julci. A rede estadual de São Paulo planeja valer-se do acervo produzido e veiculado durante a pandemia pelo Centro de Mídias. Mesmo após a retomada das aulas presenciais, o acesso às videoaulas seguirá gratuito para os estudantes, que poderão assistir aos vídeos sem consumir o pacote de dados de seus celulares.

“As aulas estão gravadas e focam as habilidades estruturantes”, afirma Julci. Ela enfatiza que esse tipo de recurso será ainda mais útil para as atividades de recuperação de estudantes que ficaram sem acompanhar as aulas remotas na pandemia. Para facilitar o uso das videoaulas, é possível fazer buscas por data e por componente curricular.

De acordo com a consultora, é essencial levar em conta as diferenças de aprendizagem em cada turma, adotando estratégias pedagógicas que atendam tanto os grupos mais avançados quanto os menos. De certa maneira, pondera ela, isso já ocorre no ensino presencial, já que é comum haver alunos que dominam mais a matéria do que outros. “Só que agora a diferença vai ser mais gritante”, prevê Julci.

Ao planejar as aulas de recuperação, os gestores terão que considerar também a divisão das turmas em grupos menores, uma vez que o retorno será parcial, com os estudantes se revezando. Além disso, haverá alunos que não retornarão para o ensino presencial, por fazer parte dos grupos de risco da covid-19 − assim como professores.

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