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Como algumas redes estão planejando a fusão dos anos letivos de 2020 e 2021

05/11/2020 | Editado em 13/11/2020 15:10

A recuperação da aprendizagem será um dos desafios das redes de ensino em 2021. Apesar do esforço de gestores, é sabido que muitos alunos não participaram das atividades remotas, enquanto outros tiveram dificuldades para acessar e acompanhar as aulas a distância. Mesmo diante de ainda muita incerteza, em todo o país, diferentes redes discutem estratégias para garantir que objetivos de aprendizagem de 2020 possam ser atingidos no ano que vem e nos anos seguintes.

Uma delas é trabalhar os anos de 2020 e 2021 como um continuum. A ideia é que o atual e o próximo ano letivo formem um mesmo bloco ou ciclo, de maneira que conteúdos de 2020 sejam ensinados em 2021, juntamente com os tópicos do novo ano. A estratégia foi recomendada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e está alinhada a outra preocupação dos gestores: evitar ao máximo a reprovação de alunos em 2020.

É que a suspensão das aulas presenciais, logo no início da pandemia de covid-19, e as dificuldades do ensino remoto não só prejudicaram a aprendizagem, como também afastaram muitos estudantes da escola. Daí o receio de que haja aumento da evasão − o que seria agravado pela reprovação ao final deste ano. O continuum, portanto, atende à necessidade de evitar ou reduzir a retenção de alunos em 2020, deixando que eventuais reprovações por baixo desempenho escolar ocorram somente no fim de 2021.

O continuum deverá ser realidade em milhares de escolas brasileiras no ano que vem. Para saber como as redes estão planejando a nova organização das séries e do calendário escolar, ouvimos representantes de secretarias estaduais de Educação.

No Rio de Janeiro, a rede estadual adotará o continuum em 2021, e a proposta está em fase de elaboração. O secretário da Educação, Comte Bittencourt, adianta que não haverá reprovação de alunos, exceto daqueles que tenham perdido o vínculo com a escola. Nesse caso, os estudantes deverão ser rematriculados na mesma série em 2021.

“O mundo todo está discutindo isso: não se pode falar em reprovação. Até os países que tiveram aulas on-line com alta resolutividade estão convencidos de que muitos objetivos previstos não foram alcançados de forma remota”, diz Comte. “Como muito bem definiu o CNE, temos que olhar [para o atual e o próximo ano letivo] como um continuum escolar, um bloco.”

A rede fluminense atende alunos dos anos finais do Ensino Fundamental (6º ou 9º ano) e do Ensino Médio. Segundo o secretário, a maior preocupação, em termos de recuperação da aprendizagem, recai sobre os atuais estudantes do 2º ano do Ensino Médio. Em 2021, eles estarão concluindo essa etapa, e as escolas terão apenas um ano para repor conteúdos e superar lacunas deixadas pelo ensino remoto. Já nas demais séries, observa Comte, haverá mais tempo para a reposição de aulas e para o reforço da aprendizagem.

“Teremos reforço escolar para todos os alunos. Mas, para os do 3º ano do Ensino Médio, será mais intensivo por ser o ano de terminalidade, para que possamos repor todos os objetivos não alcançados em 2020”, diz Comte. “O importante é que ocorra um replanejamento pedagógico com reposição do que não aconteceu em 2020. Alunos do 6º ano do Fundamental, por exemplo, ficarão mais seis anos no ciclo básico. Então, o tempo de recuperação poderá ser diferente.”

No início do próximo ano letivo, a rede estadual do Rio de Janeiro aplicará avaliações diagnósticas para identificar o nível da aprendizagem durante a pandemia. Os resultados, explica o secretário, servirão de base para as aulas de recuperação.

A ideia é que as escolas tenham autonomia para fazer o diagnóstico de seus alunos, identificando individualmente objetivos de aprendizagem não atingidos. Para isso, a Secretaria de Educação criou uma comissão de avaliação encarregada de desenvolver ferramentas pedagógicas que serão disponibilizadas às escolas.

No cargo há pouco mais de um mês, Comte afirma que um vasto contingente de estudantes da rede estadual ficou sem aulas durante a pandemia. De um lado, por causa da falta de internet ou de computador e celular. De outro, porque as atividades impressas foram enviadas pelo correio e não chegaram à residência de muitos alunos.

“Há alunos que não têm conexão em casa, não têm dispositivo ou, quando têm, o chip é de tempo limitado. O ensino remoto impresso também ficou comprometido, porque era pelo correio. Se [a correspondência] já não chega a um endereço fácil, imagina numa comunidade: uma coisa é o correio em Nova Friburgo, outra é na Região Metropolitana do Rio.”

Maranhão

 Responsável pelo Ensino Médio, a rede estadual do Maranhão adotará o continuum em 2021. De acordo com a secretária-adjunta de Gestão da Rede de Ensino e da Aprendizagem, Nadya Dutra, a proposta está em fase de elaboração e prevê quatro séries.

A 1ª série receberá os ingressantes, isto é, alunos que tenham concluído o Ensino Fundamental no ano letivo de 2020; a atual 2ª série será chamada de “primeira etapa”, atendendo estudantes que cursaram a 1ª série do Ensino Médio em 2020; a atual 3ª série será a “segunda etapa”, destinada a alunos que tenham cursado a 2ª série em 2020; por fim, a rede estadual vai oferecer também uma 4ª série, de matrícula não obrigatória, para os atuais concluintes do Ensino Médio que desejarem reforçar sua formação escolar.

Em cada série do continuum, os objetivos de aprendizagem do ano anterior poderão ser retomados, em conjunto com os conteúdos do novo ano (exceto nas turmas da nova 4ª série, cujo propósito será reforçar a aprendizagem e repor aulas de 2020).

“A ideia é garantir o fluxo dos estudantes e organizar o ano letivo para mitigar as perdas pedagógicas”, afirma Nadya. “Garantir, em 2021, um ano letivo que seja tanto de execução do currículo para aquela série, como também de recuperação de conteúdos que ficaram prejudicados no ano anterior.”

Outra preocupação é a evasão. A rede maranhense firmou parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para a realização de busca ativa no Ensino Médio. O objetivo é localizar jovens que tenham abandonado os estudos, identificar a causa da evasão e atuar para solucionar o problema, matriculando novamente esses estudantes na escola.

A exemplo da rede estadual do Rio de Janeiro, a ideia é aprovar o maior número possível de alunos, evitando reprovações devido ao desempenho escolar, uma vez que parte dos estudantes enfrenta dificuldades para participar das atividades remotas.

Nadya explica, no entanto, que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) exige frequência mínima de 75% nas aulas. Assim, a Secretaria de Educação ainda analisa como serão as regras de aprovação no ano letivo de 2020 − que terminará no próximo dia 4 de janeiro na maioria das escolas da rede estadual, podendo ser estendido até 21 de janeiro nas unidades que tiveram atrasos no início das aulas remotas, no primeiro semestre.

“Nossa proposta está em construção, mas já é certa a adoção do continuum. Temos a perspectiva de garantir o fluxo, e nossa máxima é que os estudantes não sejam prejudicados. Mas temos normas para seguir. Objetivamente há situações em que o estudante pode ficar retido. Assim, não temos como dizer se a aprovação [em 2020} será de 100%. Estamos aprofundando essas leituras”, disse Nadya.

A secretaria fará uma consulta aos estudantes do atual 3º ano para saber quais pretendem se matricular na 4ª série opcional. A partir da demanda, a rede definirá quais escolas abrirão as novas turmas.

Rio Grande do Sul

No Rio Grande do Sul, a Secretaria da Educação prepara um plano de recuperação da aprendizagem para 2021 e 2022. O plano de ação pedagógica servirá para orientar os professores da rede estadual nos próximos dois anos letivos, de modo que os objetivos de aprendizagem não alcançados em 2020 possam ser atingidos.

Uma avaliação diagnóstica dará o rumo das futuras atividades de recuperação. Para 2020, a secretaria gaúcha criou um novo currículo adequado ao ensino híbrido, com a previsão de atividades e avaliações tanto presenciais quanto remotas.

Na rede estadual, a orientação é para que as escolas aprovem os alunos independentemente do desempenho escolar em 2020. Em nota, a Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul (Seduc) informou:

“Em relação às reprovações, a Seduc reitera que a orientação do Conselho Nacional de Educação (CNE), Conselho Estadual de Educação do Rio Grande do Sul (CEEd-RS) e do Ministério Público é de que os alunos avancem de ano com recuperação de conteúdos e habilidades ao longo de 2021 e 2022.”

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