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Como escolas estão se preparando para o Enem e se adaptando ao ensino remoto

28/05/2020 | Editado em 26/06/2020 16:32 compartilhar

O novo coronavírus levou escolas do Brasil inteiro a fechar as portas. De uma hora para outra, gestores tiveram que buscar saídas emergenciais para continuar oferecendo atividades escolares. Nesse cenário, o ensino on-line virou realidade em escolas de Ensino Fundamental e Médio, muitas delas sem experiência nesse formato − sem falar nas dificuldades de acesso à internet.

Com esforço, alguma dose de improviso e sempre correndo contra o relógio, as redes passaram a transmitir aulas em diferentes plataformas, recorrendo inclusive a emissoras de TV e de rádio. Logo perceberam os inúmeros desafios do ensino remoto, e seus efeitos na desigualdade.

Preparar estudantes para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), por exemplo, tem exigido esforço redobrado das redes de ensino. No Piauí, o Centro de Tempo Integral Hesichia de Sousa Brito, no município de Piracuruca, a cerca de 210 quilômetros de Teresina, criou uma plataforma on-line logo no início da pandemia. Uma sala foi transformada em estúdio para a gravação ou transmissão de aulas ao vivo − de segunda-feira a sábado, das 8h às 11h30.

A escolha do turno da manhã foi proposital, conta o diretor José Idelson Escorcio de Brito. É que costuma chover à tarde nesta época do ano, e há alunos que se deslocam para a casa de parentes em busca de conexão à internet.

Para tornar as videoaulas mais atrativas, a escola selecionou professores com base, principalmente, na capacidade de comunicação. Há também aulas ministradas por dois professores, que se revezam nas explicações, dando mais dinamismo às transmissões. E todos vestem o jaleco que já costumavam usar na escola.

“O elo é a comunicação: como o professor se dirige aos alunos. A linguagem deve ser clara, atrativa e fazer o estudante se sentir valorizado e perto do professor. A afetividade é de suma importância”, diz José Idelson. Segundo ele, o ensino a distância traz novos desafios: “A presença humana gera segurança. Na aula presencial, o aluno está em contato direto com o professor, faz perguntas. Se não entendeu, pergunta de novo. Nosso aluno está aprendendo a se apropriar do celular.”

Além da videoconferência, a plataforma oferece todo tipo de material didático. A exemplo do que ocorre com as aulas gravadas, as aulas originalmente exibidas ao vivo também ficam disponíveis para acesso a qualquer hora.

Três funcionários monitoram os acessos e produzem um relatório diário, indicando quem não está participando. Outra equipe, então, entra em contato com as famílias desses alunos. Estudantes sem conexão à internet, por sua vez, recebem material impresso. As atividades on-line contam pontos na avaliação, uma vez que o ensino remoto está sendo contabilizado como período letivo.

José Idelson afirma que há um trabalho permanente de conscientização dos alunos sobre a importância da educação para o futuro de cada um: “Quer ser doutor, venha estudar na Hesiquia”, diz ele. “A escola trabalha para aprovar no Enem.”

Confira o depoimento de José Idelson Escorcio, diretor do colégio Hesíchia de Sousa Brito, em Piracuruca no Piauí.

A rede de ensino do Piauí dispõe de um centro de mídias, com seis estúdios, para transmitir videoaulas aos 224 municípios do estado. Na última segunda-feira (25), o chamado Canal Educação começou a veicular aulas semanais, no YouTube e no Facebook, para professores tirarem dúvidas dos estudantes. As manhãs de domingo já são dedicadas ao chamado Pré-Enem Seduc, inclusive na TV aberta.

Nova postura

Além das questões de infraestrutura e conectividade, ficou evidente que o ensino mediado por tecnologia, não apenas na preparação para o Enem, exige uma nova postura por parte dos professores. Afinal, especialistas dizem que transpor para o ensino on-line, pura e simplesmente, a prática pedagógica da sala de aula presencial é um erro a ser evitado.

“A tendência é reproduzir o modelo presencial, com o mesmo calendário e a mesma grade curricular. Daí decorrem alguns problemas. O primeiro e mais desafiador é o desengajamento. Até mesmo os pais desses mesmos alunos estão desgastando-se por ficarem tantas horas on-line”, afirma a consultora Julci Rocha, que é diretora da Redesenho Educacional, assessoria de formação professores e gestores com foco em inovação pedagógica e tecnologias.

Tudo começa pela distância física, explica Julci. Alunos e professores deixam de estar no mesmo lugar, ao mesmo tempo. Na sala de aula convencional, o feedback é permanente: basta olhar em volta para saber se os alunos estão conectados com a aula, quem está realizando as atividades, quem precisa de apoio etc. “A sincronicidade é o coração da aula no modelo tradicional”, diz Julci, enfatizando que a sala virtual tem outra dinâmica.

Veja os principais momentos do depoimento de Julci Rocha.

O coordenador pedagógico David Nogueira, do Programa Escola em Casa DF, da Secretaria de Educação do Distrito Federal, diz que o ensino-online tira o professor da sua zona de conforto: “Na aula expositiva tradicional, por mais chata que esteja, tenho os 40 alunos olhando para mim. Se virarem para o lado, posso chamar atenção. Se levantarem, posso dizer ‘senta’. No ambiente virtual, o estudante está do outro lado da tela, e não tenho mais esse controle. Pedagogicamente, a gente precisa repensar as nossas práticas. Temos falado isso há muito tempo: se as aulas expositivas já eram ruins presencialmente, ela passam a ser muito piores on-line. “

A diretora da Unidade de Mediação Tecnológica da Secretaria de Educação do Piauí, Viviane Holanda Barros Carvalhedo, observa também que o desafio da perda de foco do aluno, comum às aulas presenciais, é muito maior na situação atual: “Se a aula não for atraente, o aluno aperta o botão e desliga”.

Agenda

Julci Rocha, diretora da Redesenho Educacional, lembra que as escolas podem alternar atividades síncronas e assíncronas, isto é, quando possível, aulas ao vivo, em que alunos e professores fazem contato por vídeo e chat, e tarefas que os estudantes possam realizar com maior autonomia. É o caso de projetos que demandem pesquisa, leitura e outras ações dos estudantes. “O que as escolas devem sempre buscar é desenvolver experiências educacionais centradas no estudante: em vez de aula expositiva às oito horas da manhã, que tal lançar um desafio para os alunos e deixá-los se organizar de forma mais autogestionada para apresentar na aula seguinte?”, recomenda ela.

Uma agenda semanal de estudos também ajuda os responsáveis a apoiar os estudantes em suas rotinas. Segundo a consultora, algumas informações básicas precisam estar nessa agenda: o que deve ser acessado, por qual canal, quais momentos serão síncronos (aulas ao vivo), qual o prazo para a realização das atividades e por qual meio enviar os resultados.

“Quanto mais estruturada essa agenda, mais chances temos de obter feedback sobre o avanço da aprendizagem”, diz Julci. “É importante ajudar os alunos a se organizar: gastar cinco minutos para lembrar todas as entregas que eles têm que fazer naquele dia, naquela semana.”

No Ceará, a rede estadual valoriza a autonomia de cada escola para definir as melhores estratégias. Além das aulas transmitidas por TV aberta e pela plataforma Google Sala de Aula, há professores que mantêm canais no Youtube ou que utilizam outras redes. “As nossas escolas, mais que nunca, estão abertas”, diz a coordenadora de Avaliação e Desenvolvimento Escolar para Resultados de Aprendizagem, Kelem Freitas.

Segundo ela, a transição para o ensino remoto veio acompanhada de intensa cooperação entre os professores. Na rede cearense, quem sabe mais tem ajudado quem sabe menos: “Temos profissionais muito jovens, recém-formados, com perfil vinculado às novas tecnologias, e profissionais que não têm proximidade com esse tipo de ferramenta”, relata a coordenadora.

Transição

A rede pública do Distrito Federal, primeira a decretar o fechamento das escolas, em março, está remodelando o ensino remoto. A partir de junho, ainda sem data definida, as aulas pela TV aberta e pela plataforma Google na Sala de Aula, cuja principal função até aqui era manter o vínculo dos alunos com a escola, passarão a contar como dias letivos.

Para isso, a rede definiu um detalhado cronograma até o fim do ano, com a especificação das disciplinas e dos temas para cada semana de aula virtual. A ideia é facilitar o futuro retorno para as aulas presenciais, ainda mais se a transição for gradual, com uma parcela dos alunos voltando antes dos demais.

Outra preocupação é a avaliação. David destaca que o ensino on-line possibilita que os alunos busquem as respostas na internet. “A gente é obrigado a pôr em prática coisas que já vinham sendo discutidas, como a avaliacão processual”, diz o coordenador. “A ideia é ir aferindo a aprendizagem a cada semana.”

Na região administrativa de Ceilância, em Brasília, o diretor do Centro Educacional 11, Francisco Gadelha, tomou a iniciativa de criar um estúdio na escola. Com a ajuda de uma cunhada que é youtuber, ele instalou a iluminação, câmera e microfones para que os professores gravem as videoaulas. Um aluno ajuda na edição. Na semana passada, a escola passou a transmitir lives em redes sociais.

“Vi que muitos professores têm dificuldade para falar sem os alunos na frente. Eles começam e olham para mim. Aí e eu digo: ‘Olha para a câmera'”, conta Gadelha. Mestre em Educação pela Universidade de Brasília (UnB), o diretor já estava familiarizado com o ensino mediado por tecnologia, o que tem facilitado seu trabalho durante a pandemia.

Gadelha diz que muitos professores estranharam a mudança, especialmente aqueles pouco familiarizados com a tecnologia digital. “Alguns se acham incapazes. Com jeitinho e com reforço positivo, a gente vai mostrando que não. Às vezes, basta um empurrãozinho”, diz o diretor.

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