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Construir confiança no retorno é também desafio dos gestores

17/02/2021 | Editado em 17/02/2021 16:05

A estratégia de retorno presencial às aulas neste ano letivo – no caso das redes que decidiram pela volta – passa não apenas pela adequação das escolas aos protocolos sanitários, mas, também, pela construção de confiança entre pais, professores e alunos. Em meio a tantas incertezas e com a vacinação avançando a passos lentos, os gestores terão muito a ganhar se agirem para reforçar os laços da escola com todos os seus atores.

Quem chamou a atenção recentemente para esse desafio foi o pesquisador João Marcelo Borges, do Centro de Desenvolvimento da Gestão Pública e Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em sua coluna de 3 de fevereiro  no jornal digital Nexo, ele destacou a importância da confiança como valor imprescindível para o êxito da retomada das aulas presenciais.

Borges observou que a preocupação com a dimensão da confiança tem sido negligenciada em muitos documentos sobre a retomada das aulas − como se o mero anúncio de medidas de segurança sanitária bastasse para que profissionais da educação, alunos, pais e responsáveis mudassem de opinião e passassem a acreditar que é possível controlar os riscos de contágio e reabrir as escolas.

“Mais do que grandes campanhas de comunicação centralizadas, importarão as ações dos diretores das escolas com os profissionais de suas equipes, dos professores com seus alunos e responsáveis. Mais do que um documento de 50 páginas com medidas sanitárias, importará mostrar como os protocolos são colocados em prática. E essas medidas devem prosseguir mesmo depois de reabertas as escolas, para que a confiança se mantenha entre aqueles que optaram por retornar e para que estes possam aos poucos construir junto aos ainda céticos a confiança de que é possível e saudável retornar”, escreveu Borges.

Para ele, que é também idealizador e cofundador do Movimento Colabora Educação, “os dirigentes educacionais precisam adotar a confiança pública como um dos eixos de seus planos de retorno às aulas presenciais, sem prejuízo das boas recomendações”. Ao adotarem tal postura, segundo o pesquisador, os gestores “conseguirão aos poucos maior adesão de profissionais, pais e alunos e, quem sabe, ainda contribuirão para distensionar o debate público e aumentar a confiança geral na população brasileira”.

 

Goiás

Na rede estadual de Goiás, o diretor José Joaquim Gomes Neto aposta na comunicação direta e transparente. Ele participa de três grupos de WhatsApp com pais de alunos. Neste reinício de ano letivo, tem pedido a estudantes, pais e responsáveis que compareçam pessoalmente à escola para tirar dúvidas. “Os pais já estão vindo e falando das suas angústias”, diz ele. “Toda confiança pressupõe uma comunicação direta. É difícil você manter a comunicação, se essa comunicação for indireta, impessoal.”

Gomes Neto dirige o Centro de Ensino em Período Integral Professor Pedro Gomes, na capital Goiânia, onde as aulas recomeçaram exclusivamente no formato remoto, em 25 de janeiro. A retomada das aulas presenciais, restritas a 30% dos alunos por turno, ocorrerá em 22 de fevereiro.

Na rede goiana, a volta do ensino presencial não será compulsória. Assim, as famílias poderão escolher se os filhos participam do sistema híbrido, revezando-se entre aulas presenciais e remotas, ou se continuam somente a distância.

Antes da reabertura, o diretor pretende apresentar o modus operandi do ensino híbrido aos pais e responsáveis. Para isso, agendou dois dias de reunião nesta quinta (18) e sexta-feira (19).

“Faremos reunião com os pais para explicar minuciosamente como será o retorno, como vai funcionar o horário, como será a refeição, como a escola está organizando os tempos e espaços dentro daquela perspectiva dos 30% que poderão vir à escola”, adianta Gomes Neto. “Não tem como haver retorno de espécie alguma sem essa interlocução com a comunidade, com as famílias, com os estudantes, com os professores. Sem adesão do grupo, dificilmente a gente consegue atender os protocolos de segurança.”

A escola também mudou o método de ensino on-line: em vez de videoaulas previamente gravadas, as sessões agora são ao vivo, por meio da plataforma Microsoft Teams. “Foi a primeira ação que nós fizemos, para que a gente tivesse um contato mais forte com os estudantes e pudesse estabelecer essa relação de confiança.”

Gomes Neto conta que visitou outras escolas para ver in loco como estavam se preparando. Com mais de 30 docentes, o Centro de Ensino precisou ampliar a área de trabalho dos professores, passando a contar com três salas para os profissionais. Foram feitos também investimentos para melhorar a conexão à internet.

O diretor admite temer a pandemia e o risco de contágio. Por outro lado, afirma que as providências tomadas até o momento dão confiança suficiente para reabrir as portas aos estudantes. Na rede goiana, a Secretaria de Educação autorizou o retorno presencial, estabeleceu protocolos de biossegurança e liberou recursos para adequação das escolas e aquisição de EPIs. No entanto, a decisão final cabe às escolas, que, mediante justificativa, podem optar por continuar funcionando apenas remotamente.

“Medo a gente tem. Confesso que ainda temos, é natural. Estamos falando de uma pandemia sem precedentes na nossa geração. Todo mundo tem uma história de perda, de alguém que se foi por conta da pandemia. Então, a gente já está vivendo uma dinâmica de luto há muito tempo, e isso traz uma dor enorme”, diz Gomes Neto.

“O que estamos fazendo agora é ir por passos. Há alguns alunos que estão com uma deficiência muito grande [de aprendizagem]. Então, a gente está dando esse passo, porque estamos percebendo que esse passo é possível. Essa decisão parte da Secretaria de Educação? Não. Parte da nossa comunidade, tendo em vista as orientações da Secretaria de Saúde. Mas é uma decisão da comunidade. A comunidade tem que entender verdadeiramente que isso é possível dentro desta escola.”

 

São Paulo

Na rede paulista, o diretor Osmar Francisco de Carvalho conta que chamou os pais de alunos para reuniões em horários variados, a fim de evitar aglomerações − uma semana antes, fizera o mesmo com os profissionais da escola. Quem fosse do grupo de risco da covid-19 ou não pudesse comparecer por outro motivo teve a possibilidade de participar virtualmente. Cada encontro terminou com um tour, a fim de que pais e responsáveis pudessem conferir as medidas de segurança sanitária tomadas pela equipe gestora.

“Percebemos que não bastava, naquele momento, ficar apenas falando. Era preciso que todos vissem as adaptações”, diz Carvalho, referindo-se aos suportes de álcool em gel, à nova disposição das mesas nas salas de aula e no refeitório e aos bebedouros (que agora só permitem encher copos e garrafas, sem contato direto com a boca do usuário). “Os pais caminharam pela escola em pequenos grupos, para ver o que mudou. Esse tour fez a diferença.”

A Escola Estadual Milton da Silva Rodrigues está localizada na zona norte da cidade de São Paulo. Dos 360 alunos, segundo Carvalho, apenas 40 não manifestaram a intenção de retomar as aulas presenciais. Esse grupo estudará remotamente, enquanto os demais vão se revezar entre aulas presenciais e a distância.

O subsecretário de Articulação da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, Patrick Tranjan, conta que as escolas da rede estadual foram orientadas a entrar em contato com as famílias de 100% dos alunos. “Todas as famílias foram convidadas a visitar as escolas, em reuniões com as equipes escolares”, diz ele.

“As escolas passaram por muitas reformas, e a lembrança que as famílias tinham era outra. É importante ver e entender que as escolas se prepararam.”

De acordo com Tranjan, uma das preocupações foi estreitar a comunicação, “sem intermediários”. Ele lembra que, em outras ocasiões, a Secretaria de Educação enviou mensagens de texto por celular para pais e responsáveis. Dessa vez, porém, a decisão foi no sentido de que as escolas falassem diretamente com as famílias.

O subsecretário considera que a construção de confiança passa pela pronta resposta a questionamentos, pelo cumprimento de prazos e pela adoção de medidas concretas de prevenção à covid-19.

De início, desde 8 de fevereiro, as aulas presenciais estão restritas a 35% dos alunos por turno. O subsecretário observa que um dos desafios são os boatos e as falsas notícias. “Uma coisa que aparece bastante é desinformação, fake news. É difícil controlar, a gente vive num mundo super conectado, e o WhatsApp pode ser uma ferramenta incrível para se comunicar ou para desinformar.”

Mais um motivo para reforçar os laços de confiança entre as escolas e a comunidade escolar. Nas palavras do diretor Carvalho, “o segredo é o diálogo: um diálogo diário, vivo e ativo”.

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