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Crise demanda apoio emocional dos gestores aos professores

20/05/2020 | Editado em 26/06/2020 16:44
Pesquisa do Instituto Península realizada com 7.734 mil professores de todo o país entre os dias 13 de abril e 14 de maio de 2020 constatou que quase metade dos docentes (48,8%) se declarou muito ou totalmente preocupado(a) com a sua saúde mental. Dois em cada três (67%) afirmaram estarem se sentido “ansiosos”, 35%, “sobrecarregados” e 27%, “frustrados”.
Frente a esse quadro, a preocupação com a saúde mental dos docentes se sobressai como um dos pontos de atenção para os gestores. Além do estresse, da preocupação e da angústia gerados pela pandemia e pelo isolamento social a que todos fomos submetidos, os professores se viram obrigados a subitamente adequar suas práticas pedagógicas para o ensino remoto.
A especialista em educação integral do Instituto Ayrton Senna, Gisele Alves, destaca que o momento atual demanda fortemente dos diretores o exercício de suas competências na gestão de pessoas. Para orientá-los, ela recomenda que eles sigam as diretrizes de recuperação psicológica em situações de estresse (como desastres) reconhecidas internacionalmente, cujos principais eixos se relacionam: à segurança das pessoas, à esperança que elas podem ter no futuro, à calma para passar por esse momento de dificuldade, à conexão e à autoeficácia ou eficácia comunitária.
“É importante que ele [o gestor] conheça as pessoas com quem trabalha e reconheça as condições e os desafios que cada um está enfrentando. Sabendo isso, saberá inclusive como proporcionar situações de segurança e de esperança maior para esses profissionais, passando diretrizes muito claras para equipe”, afirma.
“Para isso, ele também precisa garantir uma regularidade no acompanhamento desses professores, com reuniões semanais, inclusive, e canais de diálogo, prevendo momentos de acolhimento e escuta ativa e para troca de experiências. Isso vai garantir também a conexão e a ideia de que você consegue fazer e controlar ações para atingir determinados objetivos. E aumentar a sua percepção de conexão e de autoeficácia, isto é, do quanto você se sente capaz de, de fato, trabalhar com a situação”, complementa.  
 Parte de um grupo
O estímulo à troca e ao compartilhamento de experiências tem sido uma recomendação comum entre especialistas e também presente nos relatórios de organismos internacionais em relação a ações voltadas ao equilíbrio emocional dos professores nesse contexto da pandemia de Covid-19.
Unesco, por exemplo, indica a:
“criação de comunidades de professores, pais e diretores para trabalhar sentimentos de solidão ou desamparo, facilitar o compartilhamento de experiências e discutir estratégias de enfrentamento perante dificuldades de aprendizagem”.
Na prática, profissionais das redes tem buscado nesse apoio mútuo e no trabalho colaborativo um caminho para superar as incertezas e adversidades vivenciadas nesse momento. A supervisora Cristina Barroco Massei Fernandes, que atua com a formação dos professores de tecnologia da rede municipal, conta que, mesmo trabalhando com o tema do uso das tecnologias na educação, se viu desafiada a repensar suas práticas. “Todo mundo foi tirado daquele lugar de conforto, estamos todos buscando o reequilíbrio”, afirma. O trabalho com as comunidades de prática já existia e ganhou força diante do cenário atual. “Temos batido bastante nessas questões: da autonomia, da reflexão, de repensar as próprias aprendizagens e principalmente, de que as pessoas fazem parte de um grupo, de que ninguém está sozinho. Cada vez que alguém coloca uma questão, já tem uma rede de ajuda ali”.
Leia mais sobre iniciativas das redes voltadas para troca de experiências criadas ou fortalecidas no contexto da pandemia.
Oportunidade
Manter a conexão e estreitar os vínculos com a equipe em tempos de isolamento social não é tarefa fácil para a gestão. A especialista Gisele Alves reconhece o desafio, mas acredita que as restrições atuais podem ser uma oportunidade nesse sentido. “Antes a gente tinha mais conversas de corredor mas eram mais o que a gente chama de “small talk”, aquele bate-papo sem uma intencionalidade muito específica. Agora, a distância, a gente se vê obrigado a estruturar as conversas, a ter pautas específicas sobre as quais a gente vai conversar”, pensa. “Então, tendo como foco que essas conversas entre professores e gestores devem também assegurar momentos de acolhimento e escuta ativa, é possível que esse contexto de afastamento seja justamente um momento em que aumentam as oportunidades de o gestor ouvir mais a sua equipe justamente porque agora ele está fazendo isso de uma forma mais sistematizada”.
Veja o depoimento de Gisele Alves.
Papel da Secretaria
O levantamento do Instituto Península aponta ainda que 83% dos professores não se sentem preparados para o ensino on-line – uma das razões para o elevado índices de estresse e insatisfação captados na pesquisa.
Nesse sentido, as Secretarias de Educação desempenham papel importante no suporte emocional aos professores, garantindo formação técnica para que eles se sintam aptos para atuar nesse novo contexto. No estudo, mais da metade (55%) afirmou não ter recebido nenhum treinamento relacionado ao ensino não presencial. O apoio psicológico e emocional também foi captado como uma das expectativas dos docentes.
A Prefeitura de Fortaleza é uma das que têm desenvolvido ações especificamente com esse foco. Em parceria com o Curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor), está realizando rodas de conversa de apoio e promoção da saúde mental dos profissionais da Educação, por meio de videoconferência. Os encontros possibilitam a troca de experiências e suporte social e psicológico.
Por fim, vale destacar que lidar com a complexidade da crise e seus impactos sobre o bem-estar emocional de estudantes e profissionais da Educação “demandará ações muito além de respostas puramente pedagógicas e educacionais para resolver essas questões que afetarão o dia a dia escolar”, conforme pontua a nota técnica produzida pelo Movimento Todos pela Educação sobre o retorno às aulas.
O documento ressalta a necessidade de articulação intersetorial entre os diferentes níveis de governo e o papel crucial que a escola desempenhará no acolhimento emocional de estudantes e educadores.
Para saber mais:
Competências socioemocionais para contextos de crise (Instituto Ayrton Senna): https://institutoayrtonsenna.org.br/pt-br/socioemocionais-para-crises.html
Human-Centered Leadership in Stressful Times (Harvard Graduate School of Education)https://www.gse.harvard.edu/news/uk/20/04/human-centered-leadership-stressful-times
Liderazgo escolar en tiempos de crisis: autocuidado y gestión de emociones de docentes y directivos (webinar da Facultad de Educación da Universidad Diego Portales/Chile): https://www.youtube.com/watch?v=5N0Nd-V55-s
Se cuida, professor: dicas para manter a saúde mental em tempos de pandemia (Blog do Instituto Singularidades): http://blog.singularidades.com.br/se-cuida-professor-dicas-para-manter-a-saude-mental-em-tempos-de-pandemia/
Vivescer (Instituto Península): https://vivescer.org.br/

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