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Diversificação de práticas pedagógicas no ensino remoto favorece inclusão

08/07/2020 | Editado em 13/07/2020 12:02

O ensino remoto desafia a aprendizagem. E não é diferente em relação aos alunos com deficiência. No Brasil e no mundo, gestores têm buscado soluções para superar as barreiras da distância e garantir o direito de aprender em meio à pandemia de Covid-19.

No Piauí, a Secretaria da Educação passou orientações a todas as regionais sobre como deve ser o ensino remoto para estudantes com deficiência. Uma delas é proporcionar estratégias variadas, capazes de atingir todas as crianças e todos os adolescentes, independentemente da deficiência.

No caso dos estudantes surdos, a rede estadual conta com intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras), que gravam vídeos com aulas em Libras. “Nossa preocupação é que o aluno com deficiência, igualmente aos outros, não deixe de ter o apoio necessário para aprender”, resume a gerente de Educação Especial da Secretaria de Educação do Piauí, Eleonora Sá.

O ponto central, explica ela, é promover a articulação entre professores do ensino regular e profissionais do serviço de Atendimento Educacional Especializado (AEE) − que, antes da pandemia, já faziam acompanhamento individualizado de alunos com deficiência, no contraturno das aulas.

No caso dos vídeos para surdos, por exemplo, os intérpretes de Libras entram em contato com os professores do ensino regular e pedem os conteúdos com antecedência. O passo seguinte é adaptar e traduzir as aulas para a linguagem de sinais. A estratégia conta com o apoio do Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas Surdas (CAS).

Diversificar

Intensificar a colaboração entre os chamados professores de sala comum e os professores do AEE é uma das recomendações do Guia Covid-19 − Educação especial na perspectiva inclusiva, lançado pela Campanha Nacional Pelo Direito à Educação. O guia também orienta os gestores a levar em conta as condições socioeconômicas das famílias e dos estudantes na preparação das atividades remotas, bem como seu estado emocional.

“A escuta ativa desses estudantes e suas famílias pode ampliar e aprimorar as possibilidades de atuação colaborativa e articulada entre o AEE e o professor de sala comum, possibilitando maior sucesso do fazer pedagógico”, diz a publicação.

Diversificar as práticas pedagógicas é palavra de ordem entre especialistas em educação inclusiva. É o que afirma um estudo recém-lançado pelo Instituto Rodrigo Mendes, intitulado Protocolos sobre educação inclusiva durante a pandemia da covid-19 − Um sobrevoo por 23 países e organismos internacionais. “Um dos princípios da educação inclusiva e antidiscriminatória é que todas as pessoas aprendem de maneiras diferentes e, por isso, devem existir também diversas formas de ensinar”, diz trecho do estudo.

O fundador e superintendente do Instituto Rodrigo Mendes, Rodrigo Hübner Mendes, enfatiza que cada aluno é único nas suas diferenças. Cabe à escola, portanto, atuar de maneira variada. “Não existe estratégia perfeita por tipo de deficiência”, diz Mendes. “Duas crianças com síndrome de Down aprendem de maneiras diferentes. O que importa é entender como aquele aluno aprende, quais são as suas dificuldades. Aí o professor vai experimentando, descobrindo como cada um se desenvolve e adotando diferentes práticas pedagógicas.”

Mendes considera que a análise caso a caso também deve nortear as decisões quanto ao retorno às aulas presenciais. Segundo ele, o fato de alguém ter uma deficiência não deve automaticamente ser motivo para impedir ou postergar seu regresso à escola. O que deve ser levado em conta, observa Mendes, são comorbidades e fatores de risco associados à covid-19 [confira o infográfico]. “Não dá para criar uma regra padronizada”, diz o fundador do Instituto Rodrigo Mendes.

Kit itinerante

A Secretaria da Educação do Piauí divulga, em sua página na internet, algumas das iniciativas da rede estadual. Funciona assim: professores das salas de recursos multifuncionais do AEE preparam atividades específicas, levando em conta características individuais dos alunos com deficiência. As tarefas são repassadas pela internet ou impressas e entregues às famílias, de modo a atingir o maior número possível de estudantes. Em alguns casos, profissionais de apoio podem levar o material à casa dos alunos.

Na Unidade Escolar Maria de Oliveira Rodrigues, em Dom Inocêncio, a cerca de 600 quilômetros de Teresina, uma das estratégias foi criar kits itinerantes, com material plastificado para facilitar a higienização. Na Unidade Escolar Margarida Silva Costa, em Coronel José Dias, a cerca de 500 quilômetros de Teresina, alunos com deficiência assistem a vídeos e, depois, gravam os seus próprios vídeos ou áudios, comentando o que acabaram de ver.

“Trabalhar com aulas remotas com educação especial é um grande desafio, mas, usando a criatividade e alguns recursos, conseguimos bons resultados”, diz a professora Maryland Carvalho, de Coronel José Dias.

A rede piauiense tem avançado na oferta de educação inclusiva. A gerente Eleonora, no entanto, aponta um gargalo a ser superado: boa parte das videoaulas transmitidas pelo Canal Educação, na TV Antares, pertencente ao governo do estado, ainda não tem legendas. E o sistema de tradução para Libras não foi instalado. “Essa é a minha briga”, diz Eleonora. “Estamos em negociação.”

No Rio de Janeiro, a jornalista e escritora Claudia Werneck enfatiza a importância de que a comunicação seja acessível. No caso de videoaulas, isso requer a existência de legendas, de janela com intérprete da língua de sinais e de audiodescrição (narração que permite a deficientes visuais saber o que aparece num infográfico, por exemplo). Os três mecanismos estão previstos na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015).

Claudia fundou a Escola de Gente − Comunicação em Inclusão, uma organização não governamental que promove a educação inclusiva sob a ótica da comunicação há quase duas décadas. “A escola tem que dar conta de todos os modos humanos de as pessoas existirem e de se comunicarem. Qualquer outra definição de escola deixa de ser inclusiva”, afirma Claudia.

Ceará

A participação das famílias é essencial, mais ainda no ensino remoto. No Ceará, a rede estadual orientou as escolas a criar grupos de WhatsApp com pais de alunos para facilitar a comunicação. “Temos depoimentos de nossos técnicos regionais dizendo que as famílias ligam para os filhos falarem com o professor, principalmente com o professor do AEE. Os alunos sentem muita falta”, conta Ana Cristina Rodrigues, assessora da área de educação especial da Coordenadoria da Diversidade e Inclusão Educacional (Codin).

Em Fortaleza, a Escola de Ensino Fundamental e Médio Luiz de Gonzaga da Fonseca Mota é frequentada por alunos de famílias de baixa renda. A sala de recursos multifuncionais presta atendimento individual não só a estudantes. “A gente assiste crianças da escola e de fora. Na pandemia, se não fosse esse serviço, o prejuízo seria ainda maior”, diz a diretora Fátima Bezerra. Atualmente são 38 alunos no AEE.

A rede cearense pratica a inclusão − realidade na maioria das escolas brasileiras −, o que significa que alunos com deficiência frequentam as turmas regulares. No contraturno das aulas, antes da pandemia, eram atendidos individualmente no AEE, prática que foi mantida.

Sem aulas presenciais, segundo a diretora, nem todos os alunos com deficiência estão acompanhando as atividades disponibilizadas na plataforma Google Sala de Aula. “Temos alunos autistas ou com deficiências mais acentuadas para quem a dificuldade é maior, já que não estão presencialmente com a professora”, relata Fátima.

Ela conta que a psicopedagoga responsável pelo AEE entrou em contato com as famílias e organizou um horário de atendimento individualizado, pela internet. Elaborou também um tutorial para ensinar as famílias a acessar a plataforma on-line. Em outra frente, a psicopedagoga estreitou o diálogo com os professores do ensino regular, passando a adaptar os conteúdos para os alunos com deficiência. “A gente percebe a evolução”, diz a diretora Fátima.

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