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Em meio à pandemia, escolas mostram a importância do protagonismo jovem

10/06/2020 | Editado em 19/06/2020 17:14

O protagonismo estudantil faz parte projeto pedagógico da Escola Clóvis Borges Miguel, em Serra (ES). Na foto, antes da pandemia, alunos participam de reunião. Crédito: Eder Chiodetto/Ateliê Fotô

 

No município de Milagres (CE), a Escola Estadual de Educação Profissional Irmã Ana Zélia da Fonseca teve, como tantas outras no Brasil, que se adaptar ao ensino remoto no contexto da Covid-19. Entre suas estratégias estão a realização de lives para ajudar os alunos a acompanharem as aulas dos professores e atividades recreativas virtuais, para aliviar a tensão e o estresse causados pela pandemia. No entanto, o que há de mais relevante nessas atividades é que elas são realizadas pelos próprios alunos.

“Sabemos que nem todos conseguem aprender da mesma forma e, por isso, trazemos resumos, mapas mentais e videoaulas simplificadas dos professores. É preciso transformar o conteúdo em algo do dia a dia, para que possa ser absorvido com mais facilidade”, diz o presidente do grêmio estudantil, Marcos Bryan Figueiredo, de 16 anos.

Às sextas-feiras, são feitas lives no Instagram para os estudantes mostrarem seus talentos no quadro Luz, Câmera e Arte. O grêmio também promove a postagem de memórias da escola, às quintas-feiras − a chamada TBT (do inglês Throwback Thursday ou quinta-feira do retorno ou do regresso). “Postamos algo relacionado à saudade que sentimos da escola, pra tirar um pouco da tensão e do estresse. Temos ainda o projeto Cuca Legal, que cuida da saúde mental dos colegas, tratando de questões como ansiedade, depressão e competências socioemocionais, contando com a parceria de profissionais da área”, relata Marcos.

O exemplo da escola Irmã Ana Zélia da Fonseca mostra que, mesmo em meio à pandemia de Covid-19, grêmios estudantis, líderes de sala e monitores (alunos que auxiliam professores) podem ser aliados no enfrentamento dos problemas relativos ao isolamento social e ao ensino remoto.

Há, pelo Brasil, vários exemplos de como estudantes têm assumido protagonismo na atual crise. Em Itapiúna, município a cerca de 100 quilômetros de Fortaleza, o grêmio estudantil da Escola de Ensino Médio Vereadora Edimar Martins da Cunha auxilia a escola no atendimento a colegas que não têm acesso à internet. “Fazemos a impressão de atividades e enviamos com o apoio de moradores das comunidades”, diz o estudante Ermesson Germano, de 17 anos, que cursa o 3º ano do Ensino Médio.

O grêmio também promove atividades on-line: “Estamos tendo webconferências, abordando temas de saúde mental, desafios de estudos domiciliares e dicas de como manter a rotina”, afirma Ermesson. “Mesmo distantes fisicamente, estamos unidos, nos fortalecendo.”

 

Protagonismo como política da rede

 

Esses casos em escolas do Ceará não acontecem por acaso. Há uma política da rede estadual para incentivar essa participação. A secretaria estadual conta com uma Coordenadoria de Protagonismo Estudantil, chefiada pela coordenadora Gilgleane Silva do Carmo.  Gil, como é chamada, destaca o empenho dos jovens na criação de redes de apoio remoto para ajudar os demais alunos a manter o vínculo neste período prolongado de suspensão das aulas presenciais. “Percebemos que os estudantes se organizam de maneira solidária a cooperar para que seus colegas não desistam dos estudos”, diz a coordenadora.

No município de São Gonçalo do Amarante (CE), na região metropolitana de Fortaleza, a Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Adelino Cunha Alcântara estimula o protagonismo juvenil − e se beneficia dele. A diretora Nakeida Castro conta que uma de suas preocupações, logo após a suspensão das aulas presenciais, foi pensar formas de dar continuidade às ações lideradas por estudantes. “Começamos a fazer reuniões com alunos, e foram surgindo ideias”, lembra Nakeida.

Uma das primeiras ações foi a gravação de vídeos com tutoriais para auxiliar os colegas. Os tutoriais davam dicas sobre como se organizar durante a pandemia, como dividir o tempo de estudo remoto e como manter controle das atividades escolares já entregues ou pendentes. “Montaram uma planilha e socializaram no Whatsapp. Mostraram que a planilha podia ficar no celular, no notebook ou mesmo numa folha de papel, na parede do local onde o aluno costuma estudar.”

Nakeida conta que uma líder de turma preparou um tutorial sobre mapas mentais. O vídeo mostra como resumir o conteúdo, com destaque para os tópicos mais importantes. De maneira simples e direta, recomenda aos colegas que usem caneta colorida para realçar cada item. “Entre pares, tudo é mais fácil, a linguagem é a mesma”, diz a diretora.

Recentemente, a coordenação percebeu que uma turma do 3º ano do Ensino Médio estava com baixo engajamento. A líder de sala foi procurada e chamou uma reunião virtual com os colegas. “Depois disso, a participação da turma melhorou 95%. Alunos que estavam com atividades atrasadas procuraram a coordenadora e pediram para receber as tarefas de novo. Falaram que tinham tido problema com o celular”, conta a diretora.

Outra preocupação é a saúde mental dos estudantes. Em maio, Nakeida foi procurada por representantes do grêmio estudantil que queriam promover uma atividade recreativa. Ela observa que a suspensão das aulas presenciais, numa escola que funcionava em horário integral, das 7h às 16h40, representou uma mudança brusca na rotina dos alunos. “Eles sentem muita falta. Nós também, mas eles, muito mais”, afirma a diretora.

O resultado foi um encontro virtual, numa noite de sábado, em que as turmas do 3º ano do Ensino Médio puderam jogar games on-line e participar de uma espécie de gincana virtual. Cada um na sua casa, os alunos acionavam a câmera do celular para realizar desafios, como equilibrar pratos e copos na mesa e fazer flexões. Houve também um quiz pelo Google Meet, e professores doaram livros, uma blusa, uma pizza e uma caixa de bombons para servir de premiação. “Foi uma noite de alegria, de risos. A ideia não era competir, era distrair”, diz Nakeida, que planeja repetir a dose com as turmas do 1º e do 2º ano do Ensino Médio.

Escuta

Ouvir os estudantes e abrir espaço para que participem da gestão escolar são práticas rotineiras na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Clóvis Borges Miguel, em Serra, município da região metropolitana de Vitória, no Espírito Santo. Das redes sociais à rádio escolar, passando pelas reuniões de pais e pela administração de espaços como a biblioteca e os laboratórios de ciências e de informática, os alunos não só têm voz, como tomam decisões e atuam em parceria com a direção.

“O protagonismo dos estudantes foi e está sendo primordial nas ações e atividades on-line”, diz a diretora da escola, Elaíse Carla Soneghetti. Quando a rede estadual passou a utilizar um ambiente virtual de aprendizagem, durante a pandemia, os primeiros estudantes a testar o novo sistema foram os representantes de turma, que passaram também a auxiliar os colegas na adaptação. Segundo a diretora, essa etapa permitiu identificar e corrigir gargalos antes de utilizar a nova plataforma com os demais alunos.

O projeto pedagógico da escola capixaba parte da premissa de que é preciso conhecer as necessidades e os anseios dos estudantes como ponto de partida para a busca de excelência na relação de ensino-aprendizagem. “Ninguém melhor que o próprio aluno para dizer se a gente está no caminho certo ou não. Para pensar e para fazer junto. Quanto mais os estudantes se envolvem, maiores serão os resultados de aprendizagem”, diz a diretora.

A escola tem uma banda, que ganhou um estúdio com isolamento acústico no início do ano. A pandemia impediu o uso do novo estúdio, mas um professor e três alunos de música se apresentaram recentemente em uma live. “A gente pega pelo emocional para ver se eles se implicam e se envolvem no pedagógico”, diz a diretora, lembrando que as atividades remotas ainda não estão sendo contabilizadas como dias letivos, o que diminui o interesse de uma parcela dos alunos da rede capixaba.

A ênfase no protagonismo e na comunicação ajudou muito no início da pandemia, conta Elaíse. Foi por meio dos grupos de WhatsApp criados antes da Covid-19 que a direção conseguiu entrar em contato com famílias cujos pais ou responsáveis estavam com dados desatualizados no cadastro da escola. “Ajudaram também na localização dos estudantes para a entrega de cestas básicas e na identificação dos alunos sem internet”, diz a diretora. “É essencial trazer os meninos para pensar e construir junto. A gente fica em outro patamar quando os meninos se identificam e se apropriam da escola.”

Independente do contexto da pandemia, a necessidade de dar maior protagonismo aos estudantes era um desafio já identificado nas políticas públicas brasileiras, sendo inclusive parte dos eixos estruturantes e transversais da Base Nacional Comum Curricular. Essa estratégia ajuda no desenvolvimento da autonomia, na capacidade de fazer melhores escolhas e, por fim, no exercício da cidadania, dimensão que, no contexto atual, torna-se ainda mais relevante pela necessidade de buscarmos soluções coletivas para melhor enfrentar a pandemia de Covid-19.

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