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Escolas também podem ajudar a combater a desinformação em tempos de Covid-19

06/05/2020 | Editado em 26/06/2020 16:38

Em tempos de superexposição a notícias e a conteúdos on-line, cresce a necessidade de que a população como um todo − e as crianças e os adolescentes em particular − tenha discernimento para separar o que é falso do que é verdadeiro. Eis o foco da educação midiática, esforço para dotar alunos e professores de ferramentas e habilidades que os ajudem a atuar com responsabilidade e a se orientar diante de tanta informação.  

Material de estudo é o que não falta: a própria pandemia, motivo do fechamento das escolas, pode servir de mote. Enquanto luta contra a covid-19, a Organização Mundial da Saúde (OMS) enfrenta também uma epidemia de desinformação − ou uma infodemia. De teorias conspiratórias sobre a origem do novo coronavírus a falsas notícias de que seria possível se curar ingerindo água sanitária (atitude que representa risco à saúde), a lista é longa. 

“Saúde é um tema muito arriscado para a desinformação. Se alguém segue uma informação falsa, isso coloca em risco a vida”, afirmou o editor do Projeto Comprova, Sérgio Lüdtke, à repórter Marina Lopes, do Instituto Porvir. O Comprova reúne jornalistas brasileiros para identificar postagens nas redes sociais ou em aplicativos de mensagens com informações enganosas sobre a covid-19.  

Educação midiática 

A BNCC prevê, entre as competências gerais da educação básica, o uso crítico e ético das tecnologias digitais de informação e comunicação. A competência geral de número 5, por exemplo, fala em Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.  

“A educação midiática trata da forma como as crianças estão sendo preparadas para consumir a informação vinda de todas as mídias”, diz Patricia Blanco, presidente executiva do Instituto Palavra Aberta, entidade que defende a liberdade de expressão e que está à frente do EducaMídia, programa de educação midiática. “Quais são as competências que a gente está desenvolvendo nessas crianças para que saibam consumir esse conteúdo, agora até escolar, mediado por tecnolgia?” 

Algumas redes públicas de ensino que já trabalham de forma mais profunda com esse tema têm lições a compartilhar. No município de Vinhedo, a 70 quilômetros de São Paulo, a rede municipal já elaborou uma proposta de currículo de letramento digital e deu início à formação dos professores. O coordenador de Tecnologia Educacional da Secretaria Municipal de Educação, Peter Trento, baseou-se em currículos dos Estados Unidos, da Austrália e do Reino Unido. A ideia é tratar do tema com os alunos de forma transversal, da pré-escola ao último ano do ensino fundamental, a partir do ano letivo de 2021. 

“É na escola que o aluno aprende a ser cidadão”, diz Trento, chamando atenção para as questões éticas envolvidas. “Não vale ser alguém que segue as leis, mas, quando vai para a internet, é um troll [quem posta mensagens para ofender, chamar atenção ou criar problemas], dissemina desinformação, vaza nudes dos colegas. Até porque o mundo digital também é regido por leis.” 

O coordenador observa que os cursos de licenciatura e de pedagogia não preparam os profissionais para o uso das novas tecnologias digitais. “É uma falha muito grande na formação inicial: o professor sai sem saber lidar com isso”, diz Trento. “E o aluno que o professor recebe na sala de aula mudou: é alguém que passou a noite nas redes sociais, que viu uma discussão no WhatsApp e que traz tudo isso para a escola.”  

Patricia Blanco, do Palavra Aberta, observa que a covid-19 surgiu no momento em que havia escolas discutindo a proibição do uso de celulares e a redução do número de horas que seus alunos permanecem nas redes sociais e na internet. Justamente devido à percepção de que tamanha exposição pudesse ser prejudicial. Com a pandemia e a adoção do ensino on-line, diz ela, foi preciso dar um giro de 180 graus. “O problema não é a tecnologia, é como nós a utilizamos “, afirma ela. 

O programa EducaMídia já atingiu mais de 10 mil professores dos ensinos fundamental e médio por meio de um curso a distância com 30 horas de duração. O curso é gratuito e se estrutura em três eixos: leitura crítica, escrita (autoexpressão) e participação (cidadania e a responsabilidade de quem compartilha informações). Há também formações presenciais em todo o país − atualmente interrompidas devido à pandemia. 

Na página do EducaMídia na internet, são disponibilizados planos de aulas sobre o tema. Um deles − Quem disse isso? − aborda a confiabilidade das fontes. O programa também firmou parceria com a rede estadual de São Paulo para a oferta de uma disciplina optativa denominada Muito além das fake news.  

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