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Formação para o ensino remoto demanda reflexão sobre papel do professor e suas práticas pedagógicas

04/06/2020 | Editado em 26/06/2020 16:47 compartilhar

Márcia Damasceno, formadora da Seduc-PI, durante oficina transmitida pelo Canal Educação, mantido pela rede (Foto: Site / Seduc-PI)

A falta de formação dos professores para o ensino remoto tem sido amplamente noticiada. Levantamento recente divulgado pelo Instituto Península, realizado entre os dias 13 de abril e 14 de maio de 2020, também traz evidências sobre o problema: 55% dos docentes participantes do estudo não tiveram qualquer suporte ou capacitação durante o isolamento social para ensinar fora do ambiente físico da escola. A pesquisa atesta ainda a demanda e o interesse por essa formação: 75% gostariam, sim, de receber apoio e treinamento neste sentido.

Dados de outros estudos pré-pandemia também ajudam a entender o grau de familiaridade e de conhecimento dos professores no uso de tecnologias na educação. Segundo a última edição da pesquisa TIC Educação, de 2018, apenas 43% dos professores afirmaram ter cursado uma disciplina na graduação sobre o uso de tecnologias na aprendizagem. E somente um terço (30%) já tinham participado de alguma ação de formação continuada sobre o tema. A pesquisa do Instituto Península captou ainda que nada menos que 9 em cada dez (88%) professores nunca havia dado aulas a distância antes da pandemia.

Desafio da diversidade da rede

Conforme abordamos na reportagem “Como escolas estão se preparando para o Enem e se adaptando ao ensino remoto”, a transição do ensino presencial para o remoto não é tarefa simples. É muito comum incorrer no erro de simplesmente transpor para o on-line as práticas pedagógicas de sala de aula, o que gera desengajamento dos estudantes e, consequentemente, desmotivação entre os professores.

Foi exatamente isso o que a formadora da rede estadual do Piauí, Márcia Damasceno, observou, assim que tiveram início as atividades não presenciais. “Começamos a analisar os planos que os professores faziam e percebemos que eles estavam trabalhando de uma maneira tradicional. Os professores continuavam cobrando as mesmas habilidades, os mesmos conteúdos e fazendo as mesmas atividades como se o aluno estivesse presencial na sala. Então, a única coisa que estava mudando era o canal de comunicação”, conta.

Frente a esse quadro, o programa de formação da rede, denominado Mais Aprendizagem, antes restrito aos professores de Língua Portuguesa e Matemática, foi ampliado para todos os docentes e as oficinas, antes presenciais, passaram a ser transmitidas via satélite pelo Canal Educação mantido pela rede e também pelo YouTube. “Falar para todos os professores da rede com orientações, sugestões de práticas metodológicas, como ele poderia trabalhar esse ensino remoto, esse foi o nosso maior desafio”, acredita.

Márcia relata ainda que, além de lidar com a complexidade de falar para um público tão diverso – professores de diferentes componentes curriculares, de diferentes etapas de ensino, de todo o estado – , a formação precisa considerar ainda os diferentes níveis de acesso à internet e às tecnologias dos professores e do alunado, além dos distintos graus de familiaridade com essas ferramentas. Por isso, a apresentação nas formações de uma metodologia que demanda o uso de tecnologia sempre é acompanhada de outra, direcionada aos alunos que não possuem acesso à rede e receberão o material impresso. “Porque nós compreendemos que eles têm o mesmo direito de aprendizagem dos demais”, explica. Além disso, as formações alternam momentos de orientações gerais e outras mais específicas para docentes de determinada etapa do ensino e incluem a proposição de sequências didáticas cujo uso possa ser adaptado por docentes de qualquer componente ou série.

Potencial formativo das experiências

A Secretaria Estadual de Educação do Ceará já realizava um trabalho intenso de formação continuada dos professores semipresencial. Para apoiar os docentes nesse momento de ensino remoto, está realizando uma série de ações, que vão desde oficinas que visam capacitar os professores para o uso das ferramentas tecnológicas até a realização de transmissões ao vivo (as lives). “A primeira live foi para acalmar os professores. Falamos: não vamos fazer educação a distância; vamos estar mediando os estudos domiciliares com esses artefatos tecnológicos que temos”, relata a coordenadora da Formação Docente e Educação a Distância da Seduc, Vagna Lima.

A Seduc-CE também investe bastante no potencial formativo do compartilhamento de experiências. “Levamos para as oficinas aqueles docentes que já tinham mais habilidade para compartilharem e ajudarem nessa construção com os colegas”, afirma Vagna. Além disso, as produções pedagógicas dos professores são disponibilizadas via site e pelo facebook da Coordenação e a apresentação de práticas tem espaço garantido nos eventos promovidos pela rede. Durante o mês de maio, a Secretaria realizou uma ação, denominada “Conexão Seduc: diálogos e experiências sobre os estudos domiciliares”, com uma programação de palestras, colóquios temáticos e fóruns para trocas de conhecimentos.

Webinar promovido pela Coordenadoria de Formação Docente e Educação a Distância da Seduc-CE nesse contexto de atividades não presenciais

Papel do professor

Uma reflexão fundamental dentro desse contexto do ensino remoto e de uso mais intenso das tecnologias diz respeito ao papel do professor nesse cenário. Vagna, da Seduc-CE, conta que a implementação das atividades não presenciais na rede demandou o desenvolvimento de ações voltadas não só para o letramento digital dos docentes mas também para mobilizá-los para o uso dessas ferramentas. “Fazemos uma sensibilização para que eles não se sintam pressionados e entendam que o fato de ele aprender a usar essas ferramentas de mediação tecnológica para o exercício da docência não substituirá o professor. Também deixamos claro que esses artefatos todos já estavam aqui, podem ser utilizados para dinamizar as aulas e vão ser úteis no momento posterior a essa crise sanitária que estamos vivendo”, ressalta.

O contexto demanda ainda uma discussão sobre o que é essencial que o aluno aprenda nesse momento e dadas as circunstâncias. Marcia Damasceno, da Seduc-PI, conta que muitos professores acabam acreditando que “quanto mais conteúdo o aluno receber, mais compreensão ele vai ter”: “Nas oficinas trabalhamos bastante a questão do foco no que é essencial que o aluno aprenda. Nesse momento a gente sempre discute que menos é mais. E é naquele essencial que o professor precisa desenvolver a sua estratégia de trabalho”, pontua.

Se trata de pensar quais conteúdos são prioritários e como estruturar uma experiência para esses estudantes que de fato seja significativa. A gente não pode perder essa pergunta essencial que guia toda a discussão pedagógica porque podemos pegar um caminho de ‘Que atividade iremos fazer?’”, concorda a diretora de Desenvolvimento Pedagógico da Comunidade Educativa Cedac, Patricia Diaz. “É importante que em um espaço formativo, em uma reunião pedagógica, que esse coletivo se ponha a pensar no currículo preestabelecido e o que nesse momento é necessário e é possível fazer. Quais as competências necessárias para o estudante naquele determinado segmento, período do ano letivo que precisam ser garantidas e quais as melhores estratégias”, explica.

Confira também: Assista à entrevista com a diretora de Desenvolvimento Pedagógico da Comunidade Educativa Cedac, Patrícia Diaz

Por fim, vale mencionar que apoiar o professor para atuar nesse contexto envolve ações de suporte em outras dimensões não só relacionadas à questão técnica. “Nesse momento, além do papel-chave de ensinar os estudantes, o professor se tornou oficialmente a ponte entre as famílias, os alunos e os sistemas de ensino”, destaca a diretora do Instituto Península, Heloisa Morel.

A diretora do Cedac observa que a situação atual demanda que o professor “exerça outras facetas da sua profissão, que geralmente não são tão frequentes no dia a dia do trabalho na escola”, como esse contato mais estreito com cada um dos alunos para saber como estão em termos de saúde, bem-estar, condições de vida.

Nesse sentido, precisa lidar com questões complexas como fome, violência, drogas. “[Ser professor] Precisa ser encarado como uma profissão que exige um nível de preparo em múltiplas dimensões não apenas as técnicas, de Pedagogia, mas físicas e emocionais para dar conta de desenvolver outros seres humanos”, salienta Heloisa.

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