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Gestores de secretarias relatam aprendizados das redes no período da pandemia

23/09/2020 | Editado em 23/09/2020 14:54

A pandemia de Covid-19 mudou por completo o funcionamento das redes de ensino. De uma hora para outra, as escolas fecharam as portas, e a rotina de aulas presenciais deu lugar ao ensino remoto − com todos os desafios inerentes a tamanha mudança.

Do ponto de vista das Secretarias de Educação, foi preciso lidar simultaneamente com problemas em diversas frentes: da falta de acesso à internet até a inexperiência e falta de formação dos profissionais para atuar no ensino a distância. Tudo em um contexto de isolamento social, de mortes provocadas pelo novo coronavírus e de privação econômica − em que a suspensão da merenda pôs em risco a segurança alimentar de uma parcela dos estudantes.

Nesta quarta reportagem da série Aprendizados do ensino remoto, ouvimos secretários de Educação e dirigentes da rede pública para saber quais foram, na visão deles, as lições até aqui.

A palavra tecnologia está presente na fala de todos. Nos últimos seis meses, o ensino remoto intensificou de maneira inédita o uso de recursos tecnológicos na educação. De um lado, o novo formato evidenciou a exclusão digital. De outro, sinalizou que as ferramentas tecnológicas podem ser incorporadas às aulas presenciais, como já se percebe no ensino híbrido.

“Em meio a todas as questões ruins que esse vírus trouxe, talvez um dos avanços mais fortes é que a gente vai avançar dez anos na utilização da tecnologia”, diz o secretário de Educação do Rio Grande do Norte, Getúlio Marques Ferreira.

Muitas das ferramentas digitais agora incorporadas ao dia a dia das escolas, segundo ele, já estavam disponíveis havia anos sem que fossem devidamente aproveitadas. Ele cita, como exemplo, a plataforma virtual adotada pela rede potiguar.

“A nossa plataforma digital já existe desde 2017, mas era pouquíssimo utilizada. E agora tem uma utilização enorme, quase mil vezes o que se usava antes”, afirmou. “Vamos criar o hábito e a cultura de que as tecnologias são muito bem-vindas para a educação, desde que intermediadas pelo professor.”

Desigualdades

O secretário de Educação do Espírito Santo, Vitor de Angelo, é outro que faz referência ao impacto tecnológico. “A incorporação da tecnologia é a parte mais evidente dessa mudança”, afirma. “Como os alunos ficaram distantes da escola, não houve maneira mais efetiva que a mediação de tecnologia para chegar até eles.”

Vitor chama a atenção, contudo, para as deficiências de infraestrutura e para as desigualdades socioeconômicas. Além da falta de acesso à internet, há estudantes que sofrem com a baixa qualidade da conexão, a ponto de não participarem de atividades on-line. Sem falar nos alunos que não têm computador e naqueles que dependem do celular dos pais para acompanhar as aulas − muitas vezes, tendo que dividir o aparelho com os irmãos. “Há um grupo grande de alunos excluídos dessas soluções tecnológicas”, conclui Vitor.

Em Brasília, o secretário-executivo de Educação do Distrito Federal, Fábio Sousa, afirma que o ensino mediado por tecnologia veio para ficar. “Daí a necessidade de investimento em tecnologia: capacitar nossos profissionais e oferecer ferramentas para os estudantes do século 21”, diz ele. “Nenhuma rede de educação estava preparada para este momento de pandemia, que escancarou nossas feridas históricas de desigualdades sociais.”

O secretário-executivo considera que a suspensão das aulas presenciais jogou luz sobre o papel do professor e sobre a sua importância na relação de ensino-aprendizagem. “Seja qual for a tecnologia disponível, a pandemia mostrou que existe a necessidade de um professor fazendo a mediação.”

Por outro lado, segundo Fábio, a chegada de novas tecnologias revelou a defasagem de uma parcela dos profissionais, principalmente dos mais velhos. Ele cita o caso de um professor que mostrava material impresso diante da câmera nas aulas virtuais pelo Google Meet − esse docente desconhecia o recurso de compartilhamento de tela, que permite exibir à turma as imagens do computador.

“As crianças e os adolescentes estão ensinando professores a trabalhar com ferramentas tecnológicas. Ainda hoje escutei um professor dizer que tinha pavor de tecnologia, mas que aprendeu com os alunos e agora está se sentindo super bem”, conta Fábio.

Proximidade

Outro aprendizado destacado pelos secretários é a maior proximidade com as famílias dos alunos. “A pandemia, apesar dos seus malefícios, tem possibilitado uma maior aproximação”, diz o secretário do Espírito Santo.

Muitos contatos ocorrem quando os pais vão à escola buscar material didático impresso ou cestas básicas, disponíveis também em supermercados. As equipes escolares aproveitam para enfatizar a importância de ações como verificar se os filhos estão fazendo as atividades escolares ou ter um espaço de estudo em casa. “Já tive diversos relatos de que é um momento propício de aproximação com as famílias”, diz o secretário capixaba.

No Distrito Federal, Fábio conta que as escolas passaram a cobrar maior participação dos pais ao longo da pandemia: “Hoje percebemos que existe mais proximidade da escola com a família, e a gente espera que isso seja um legado para o pós-pandemia.”

Pedagogia

O ensino a distância contribuiu para que gestores tomassem consciência da realidade vivida por boa parte dos estudantes. “Passamos a nos dar conta de que o aluno não devolveu a atividade remota porque não tem computador”, diz o secretário do Espírito Santo. “Que alunos de metade da rede precisam de cestas básicas, dando bem a extensão da pobreza que caracteriza o nosso país e o público da rede pública.”

Vitor destaca escolhas pedagógicas da rede capixaba que, segundo ele, contribuem para a aprendizagem. Uma delas é a maior ênfase a conteúdos interdisciplinares. Outra, o uso de metodologias ativas: investigação, nos anos iniciais do ensino fundamental; e projetos, nos anos finais do fundamental e no ensino médio.

No Ceará, o secretário-executivo de Ensino Médio e Profissional, Rogers Vasconcelos Mendes, afirma que o ensino remoto, por meio da tecnologia, permite um acompanhamento individualizado dos alunos. “Cada estudante tem suas peculiaridades, ritmos de aprendizagem, e o ensino remoto revelou isso de forma clara”, diz Rogers.

Rotinas

Na pandemia, os secretários de Educação passaram a ter interlocução com um número crescente de atores dentro e fora dos governos. De parcerias com emissoras de rádio e TV para transmitir videoaulas a esforços para fornecer pacotes de dados gratuitos na internet aos estudantes, a lista de tarefas cresceu. “Tivemos que ampliar nossos horizontes”, diz o secretário-executivo Fábio.

No Distrito Federal, os encontros virtuais com diretores de escola e outros gestores mostraram que é possível repensar a rotina de reuniões presenciais − que exigem deslocamentos e interferem no trabalho das equipes. Ele cita a maior agilidade das videoconferências, que podem ser agendadas a qualquer hora.

“Pela primeira vez, fizemos uma reunião com todos os diretores de escola de forma virtual. Achávamos que ia ser um conflito de falas, mas ficamos super felizes: é possível falar com toda a sua rede e efetivamente trabalhar em rede. É um ganho, se é que podemos falar em ganho neste momento de tantas perdas em função da Covid-19”, conclui Fábio.

No Rio Grande do Norte, o secretário Getúlio considera que a pandemia também deixará um legado de higiene e limpeza bastante útil na prevenção de outras doenças. Ao comentar providências para a retomada do ensino presencial, ele prevê: “As condições que estamos preparando agora vão servir para depois”, diz Getúlio. “Lavar as mãos, higienizar, essas coisas vão ficar para sempre nas nossas escolas.”

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