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“No ensino híbrido, o on-line potencializa o momento presencial”, explica Lilian Bacich

30/10/2020 | Editado em 30/10/2020 17:04

Para a professora Lilian Bacich, uma das principais referências em ensino híbrido do País, mais do que a apropriação dos recursos digitais, o domínio das metodologias ativas é o principal desafio para que os docentes passem a atuar dentro dessa abordagem. Mas destaca que, uma vez vencida essa barreira, os ganhos são muitos tanto para quem ensina como para os estudantes:

“[O professor] despende menos tempo no seu planejamento, aproveita mais a sua experiência em sala de aula, sai menos cansado. Os alunos ficam mais interessados, se envolvem mais; o tempo passa mais rápido porque é mais produtivo”.

O papel do professor dentro da abordagem do ensino híbrido, como o gestor pode apoiar a equipe na adoção dessa perspectiva, como potencializar os momentos presenciais e on-line foram algumas das questões que ela abordou em entrevista ao Instituto Unibanco. Confira os principais trechos:

O que é o ensino híbrido?

Lilian: O ensino híbrido é uma abordagem que envolve a conexão entre aquilo que o aluno faz online ou mesmo off-line, mas com o uso de recursos digitais, e aquilo que ele faz presencialmente numa sala de aula física. Quando você combina essas duas experiências de aprendizagem e tem como foco a personalização, aí você está realizando o ensino híbrido com essa proposta de um estudante mais ativo, no centro do processo e de uma avaliação formativa.

Como potencializar os momentos presenciais e on-line?

Além do potencial de estimular a autonomia e o protagonismo do aluno, o on-line também é um meio importante do professor ou da escola coletar informações sobre esse aluno. Por exemplo, se ele fez um mapa mental, o professor já pode a partir desse mapa mental identificar o que ele tem de dificuldade, de facilidade, que tópico ele poderia aprofundar mais. Se ele assistiu a uma videoaula e respondeu a um formulário depois, a escola tem dados quantitativos para saberem o percentual de acertos, o quanto ele apresentou de dúvida. Essas informações potencializam o momento presencial. No ensino híbrido a gente entende que o momento presencial, em que o aluno está face a face com o professor, é o momento para troca, olho no olho, em que o aluno deve estar mais desconectado que conectado, especialmente nesse retorno das escolas, desenvolver a argumentação, o debate, a própria aplicação dos aprendizados que ele trabalhou em casa, aprofundando conhecimentos ou esclarecendo alguma dúvida.

Caso esse aluno não tenha o contato digital na casa dele, que a escola também seja esse espaço para que ele entre em contato com essa cultura digital e possa desenvolver esses desafios on-line na escola também, mas não no mesmo tempo em que ele está com o professor. A gente tem alguns modelos de ensino híbrido que promovem esse revezamento entre o on-line e o face a face com o professor.

A gente tem exemplos de escolas públicas que conseguiram reconfigurar o espaço do laboratório de informática, no sentido de que não tem as mesas enfileiradas, mas espalhadas. E aí você tem um espaço em que os alunos podem trabalhar desconectados com o professor, as vezes numa roda de conversa, ou próximo do laboratório, enquanto que outra parte podem fazer o contato com o digital de uma forma mais individual, principalmente se não teve acesso nesse período em casa. Esse é o modelo chamado de laboratório rotacional, de uso do laboratório de informática.

Com a reabertura parcial e gradual das escolas, como promover a inclusão dos alunos que não têm acesso à internet e aos dispositivos tecnológicos no âmbito do ensino híbrido?

Quando a gente olha para esse modelo do laboratório rotacional, ele é uma estratégia que pode ser muito útil para gente trazer para a cultura digital aqueles alunos que nesse período ou no dia a dia não têm acesso ao digital na casa deles. O Laboratório Rotacional é uma boa experiência para que a gente leve os alunos para o contato digital e ao mesmo tempo tenha a possibilidade de fazer o face a face com o professor e desenvolver outras habilidades.

A gente tem o modelo da sala de aula invertida, em que o aluno se prepara para a aula presencial e nesse se preparar ele pode usar o on-line se ele tiver ou uma mídia social, muitas redes utilizaram o whatsapp, os recursos digitais e outras utilizaram a tevê e o rádio que não se configuram no ensino híbrido mas numa visão ampliada, que é o que a gente vem defendendo, de uma educação híbrida, que pode dar acesso a outros recursos para aqueles que não têm acesso ao digital.

Uma das linguagens que é preciso trabalhar com os alunos nesse século 21 é o acesso à cultura digital. Se ele não teve esse acesso e foi feito algo que cumprisse esse papel por meio de material impresso, tevê, a escola não pode se abster dessa possibilidade de qdo o aluno voltar ele ter condições de acessar, produzir, é um jeito de lidar com essas desigualdades.

Que papel o professor desempenha no ensino híbrido?

A proposta tanto de ensino híbrido quanto de uma educação híbrida está ali nesse grande guarda-chuva das metodologias ativas porque senão não faz sentido. Não faz sentido dizer que o aluno vai ter contato com o digital para ele receber informações e o professor continuar fazendo o papel de alguém que transmite informações o tempo inteiro.

Nessa perspectiva, a gente considera que o percurso metodológico que esse professor vai planejar envolve gerar um propósito, provocar esse aluno para que ele se interesse. Quando você pensa em alguma situação problematizadora, você coloca esse aluno em ação, no sentido de provocar, trazer experiências de aprendizagem que ele vai vivenciar, e o professor nesse tempo todo vai atuando como alguém que faz a mediação, mas que também apoia na reflexão e sistematização. Muitas vezes, quando a gente fala nessa mudança do papel do aluno, fica parecendo que o professor vai ficar ali só como um coach, como alguém que fica ali motivando os alunos. E não é isso. É o professor quem desenhou a experiência, então, a criatividade do professor é algo muito importante a ser desenvolvido, e o apoio à sistematização.

Quais os principais desafios para os professores atuarem nessa perspectiva?

É uma lista [de desafios]. Mas eu considero que o desafio da metodologia é o maior. Porque a gente sabe que o professor tem que ter conhecimento do conteúdo, mas ele precisa também ter um conhecimento de como se ensina aquele conteúdo. É o que a gente chama de conhecimento pedagógico do conteúdo. E aí vem um terceiro ponto que é como selecionar experiências que envolvam o digital e essa postura mais ativa dos alunos, que se conectem ao meu conteúdo e à melhor maneira de aprender aquele conteúdo.

O jeito de construir tudo isso com apoio do digital eu considero o maior desafio. Romper essa barreira. Eu digo que eu fiquei 28 anos em sala de aula, os primeiros anos eu estava em um percurso metodológico ultratradicional, que foi o que eu vivi na minha formação. Depois que o professor rompe essa barreira, que cai a ficha, descobre e consegue construir essas experiências de um outro jeito, despende menos tempo no seu planejamento, aproveita mais a sua experiência em sala de aula, sai menos cansado. Eu acho que é um desafio mas quando o professor encara esse desafio ele começa a perceber as vantagens tanto em relação a ele como em relação aos alunos, que ficam mais interessados, se envolvem mais, o tempo passa mais rápido porque é mais produtivo.

Qual o papel do gestor dentro do ensino híbrido? Como eles podem apoiar o professor dentro dessa abordagem?

Uma das questões que a gente percebe como fundamentais na gestão é, primeiro, dar esse espaço para experimentação, porque não dá certo logo de cara. O professor não acerta da primeira vez que ele desenhou uma experiência dessa. Então, dar espaço para experimentação é muito importante, o professor se sente apoiado; se ele puder compartilhar com os outros professores e o gestor, melhor vai ser esse processo. O outro ponto que eu vejo é que a gente tem falado até numa gestão híbrida, que é pensar o quanto o gestor pode exercitar na própria relação que ele estabelece com os educadores e com o resto da equipe uma gestão que vivencia essas experiências, que ela seja uma gestão “mão na massa”, que dá voz aos outros, que não seja centralizadora, porque acaba passando esta mensagem.

A gente trabalha muito com a homologia de processos: quando eu vivencio uma experiência que é mais descentralizada, em que todos têm um papel ativo, mais democrática nesse sentido, mais eu incorporo essas experiências como algo que eu posso também utilizar com os meus alunos. A gestão também pode pensar no digital, em como ela pode avançar com a sua equipe de modo que o digital tenha um papel fundamental e o momento “mão na massa” seja o momento de encontro face a face, que as reuniões sejam um momento de produção, que não se desgastem com a centralidade do gestor. Não é algo fácil de ser feito, mas é um momento muito interessante para a gente conseguir quebrar paradigmas.

 

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