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Papel das regionais de ensino segue fundamental na pandemia

27/07/2020 | Editado em 28/07/2020 18:36

Regionais desempenham papel fundamental na orientação e no suporte à gestão escolar no contexto da crise gerada pela pandemia

O fechamento das escolas decorrente da pandemia de Covid-19 demandou das redes uma rápida reestruturação para implementação do ensino remoto. As regionais de ensino, instância intermediária entre o órgão central das Secretarias de Educação e as escolas, desempenharam e seguem desempenhando papel fundamental na orientação e no suporte à gestão escolar nesse processo. Além de assegurar que as diretrizes e normatizações chegassem às escolas, elas precisaram reconfigurar seus processos de trabalho para fazer frente às novas demandas surgidas no contexto da crise gerada pela pandemia.

Com o objetivo de lançar luz sobre o papel essencial exercido pelas regionais, muitas vezes invisível dentro da estrutura educacional, conversamos com representantes dessa instância de três redes estaduais – Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte – para entender os desafios comuns no contexto atual e as especificidades dentro da realidade em que atuam. (Encontro sobre “Os desafios das regionais”, programado para essa quarta (dia 29), abre o Ciclo de Webinários Gestão da Educação Pública em Tempos de Crise, promovido pelo Instituto Unibanco com apoio das Secretarias Estaduais de Educação do Ceará, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Piauí e Rio Grande do Norte. Clique aqui para saber mais)

Pegos de surpresa

“Costumo dizer que dormimos analógicos e acordamos com o desafio de sermos digitais”, resume a gerente da 5ª Gerência Regional de Ensino (GRE) da rede estadual do Piauí, Lucimary Barros de Medeiros, sobre o súbito fechamento das escolas por conta da pandemia.

Sediada em Campo Maior (PI), município localizado a 80 km de Teresina, a 5ª GRE abrange 31 escolas distribuídas por 13 municípios.

A questão da falta de familiaridade e de formação para o uso das ferramentas virtuais pelos docentes e as limitações no acesso à internet tanto por parte dos estudantes como dos profissionais da educação pública vêm sendo amplamente noticiadas e a realidade não é diferente no Piauí. “Dificilmente hoje você vê uma casa que tem um computador, as pessoas usam o celular”, afirma.

No Rio Grande do Norte, a diretora da 6ª Diretoria Regional de Educação e Cultura (Direc) (sediada em Macau), Patrícia Carol Rodrigues de Melo, conta que um primeiro desafio que teve que enfrentar foi vencer a resistência dos professores ao ensino remoto. “Nós entendemos essa resistência, porque muitos dos nossos estudantes não tem acesso à internet”, relata. “Mas reforçamos com as escolas que elas precisavam fazer um levantamento para saber realmente a quantidade desses estudantes. E quando isso foi feito, perceberam que essa questão não era o ponto mais crítico. Temos escola em que 90% dos alunos têm acesso”, afirma.

Na Coordenadoria Regional de Desenvolvimento da Educação (Crede) 6, sediada em Sobral, o coordenador Daniel Carlos da Costa também foi pego de surpresa com o decreto em 17 de março que suspendia as atividades presenciais em toda a rede. À frente de uma equipe de 63 pessoas, precisou reorganizar processos de trabalho até então consolidados ao longo dos últimos cinco anos e orientar a readequação do atendimento às 50 escolas englobadas pela regional. Até que a interação com a Secretaria e as escolas se azeitasse, foram muitos desencontros e sobreposições de agenda. “Foi uma loucura”, lembra.

Novas prioridades
À medida que as Secretarias foram divulgando as diretrizes e tomando providências para apoiar as escolas na implementação do ensino remoto, as regionais foram se adaptando ao novo contexto e reconfigurando suas ações de suporte e acompanhamento às escolas.

A coordenadora da 5ª GRE da Seduc-PI conta que a regional vinha num processo de consolidação do Circuito de Gestão (metodologia de gestão implantada na rede por meio do programa Jovem de Futuro) e da “consciência da necessidade analisar causa e efeito de tudo e de acompanhar os indicadores”. Com o advento da pandemia e o fechamento das escolas, a prioridade passou a ser outra.

“A essência nesse momento é manter os nossos vínculos, ter o feedback e esse tem sido nosso grande desafio”, afirma Lucimary.

Ela explica que as escolas vêm buscando manter esse vínculo por meio da interação, que está se dando por meio da comunicação via whatsapp, por ferramentas virtuais e pelo aplicativo da Secretaria, além das aulas mediadas ou transmitidas pelo Canal Educação (mantido pela própria Seduc).

Já na 6ª Direc no Rio Grande do Norte, a crise da pandemia veio pôr à prova o trabalho que a diretora vinha construindo há pouco mais de um ano. Quando assumiu o cargo, a regional apresentava a penúltima posição em termos de resultados e o pior desempenho no Ensino Médio; era visível a desmotivação das equipes. Ao longo de 2019, realizou um esforço intenso de aproximação com cada uma das 15 escolas da Direc, distribuídas por 6 municípios. “Começamos a ir com mais frequência às escolas, a participar de todos os eventos e o pedagógico começou a se motivar”, afirma. Também foi retomada a ideia da “Direc itinerante”. “Antes da visita à escola, entrávamos em contato com o gestor para saber qual era a dificuldade que eles estavam tendo naquele momento. E quando eu ia à escola, nunca ia só. Além do assessor pedagógico, ia com as pessoas dos setores em que a escola estava sentindo dificuldades”, explica Patricia. “Esse movimento foi fazendo com que as escolas ganhassem uma dinâmica diferente no que se refere aos seus planejamentos e à execução”, pensa.

Um trabalho de engajamento dos estudantes nas avaliações também foi realizada. Com essas ações, segundo a diretora, a regional teve uma melhoria de 12% no seu desempenho no seu índice educacional, o que, no entanto, não foi suficiente para alterar sua posição em relação às demais regionais. Por isso, vinha se debruçando sobre os pontos críticos e estudando as melhores estratégias para aumentar a proficiência dos estudantes quando veio a pandemia.

Reorganização do trabalho
Para implementação do ensino remoto, a 6ª Direc, de Macau (RN), realizou um primeiro encontro com todas as escolas com orientações gerais sobre questões administrativas, financeiras, pedagógicas e sociais (como a distribuição de merenda e de máscaras para os estudantes mais vulneráveis). “Quando nos reunimos todos, percebemos que cada escola tem suas especificidades e uma reunião só não ia dar conta de resolver tudo”. Foram então organizadas reuniões individuais com a gestão das escolas e na sequência, com o corpo docente de cada uma das unidades.

“Foi um processo exaustivo mas importante para que todos se sentissem seguros para iniciar o trabalho”, acredita Patricia.

Paralelamente, tiveram continuidade as reuniões semanais de acompanhamento pedagógico às escolas de forma virtual.

Em Sobral (CE), as reuniões da Crede 6 com todas as escolas, antes mensais, passaram a ser realizadas toda semana e remotamente. “Até porque toda semana tinham deliberações novas da Secretaria”, explica o coordenador Daniel. Paralelo a isso, cada equipe da Crede fazia seus encontros ao longo da semana com os técnicos da escola. “Eu desenhava o atendimento geral com a equipe segunda e depois cada célula [núcleos de trabalho da regional] fazia o seu desenho de interação com as escolas. Por exemplo, a coordenadoria administrativa-financeira se encontrava com os assessores financeiros da escola.”

Além desse suporte às escolas, intensificou-se a interação com a Seduc e foi preciso se adequar à nova dinâmica. “Com isso, tivemos que organizar duas agendas: uma de interação com as escolas e com a Seduc e outra interna, de interação com as equipes”, afirma Daniel.

Novas demandas
A coordenadora da 5ª GRE da Seduc-PI relata que a orientação para elaboração dos planos de trabalho docentes que precisam ser inseridos no sistema da Secretaria é uma das principais demandas das escolas. Os técnicos da regional também vêm reforçando junto às escolas a importância do registro das aulas no sistema e da qualificação da frequência do aluno (participação nas atividades e interação com o professor).

“Estamos trabalhando no plano de ação das escolas, na avaliação, tudo isso para que a gente tenha evidências de que esse trabalho feito durante esse período seja validado pelos órgãos que normatizam a educação”, salienta Lucimary.

No Rio Grande do Norte, essa também é uma preocupação e a Secretaria estabeleceu como critério que pelo menos 75% dos estudantes precisam ter dado devolutiva das atividades para que as aulas sejam validadas – o que também demanda um esforço de registro por parte dos docentes, tanto dos planos de aula como da participação da turma. “Os professores ficaram muito ouriçados com tudo isso e foi fundamental o apoio das assessoras pedagógicas porque elas atuaram ali junto com os coordenadores pedagógicos na construção desses documentos e conseguiram avançar na utilização das plataformas virtuais, que hoje as escolas já dominam”, afirma Patrícia.

Uma outra demanda forte das escolas e presente na fala dos 3 dirigentes regionais é a questão socioemocional. “Outro desafio é trabalhar com sentimento de perda, de insegurança, de medo. Na nossa classe de professores, temos uma grande quantidade de pessoas acima de 55 anos, com comorbidades. Muitos dos nossos estudantes moram com avós, pessoas mais idosas, o que é comum no Nordeste. A questão do fluxo migratório aqui é muito intenso. Temos municípios em que chegou muita gente de fora, de São Paulo, que perdeu o emprego e conseguiu retornar, o que pode ter contribuído para o aumento dos casos”, fala Lucimary sobre o contexto da 5ª GRE (PI). Para fazer frente a essa demanda, foram organizados encontros virtuais entre psicopedagogas e coordenadores e diretores das escolas para trabalhar a educação positiva e socioemocional.

Na 6ª Direc, de Macau (RN), além do apoio socioemocional às equipes, especialmente às profissionais mães que vêm acumulando a rotina de trabalho com as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos, a diretora observa também uma preocupação forte das escolas com a questão. Uma escola que já tinha um número expressivo de casos de estudantes que se automutilavam ou com depressão, a pandemia acendeu um alerta para a gestão. Reuniu professores, alunos, pais e com o apoio de psicólogos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) desenvolveu um projeto sobre autoconhecimento, considerado exitoso pela ampla adesão dos estudantes.

Além de todas as novas demandas surgidas no contexto da pandemia, a regional precisou dar continuidade ao atendimento às escolas referentes a questões rotineiras, como prestação de contas, gestão de pessoas, emissão de documentos, entre outros. Um trabalho de assessoria fundamental, já que contempla aspectos que direta ou indiretamente incidem sobre o desempenho dos estudantes.

“O resultado pedagógico só vem com o suporte adequado. Quanto maior a agilidade [da regional], menos tempo passa aquela fragilidade prejudicando o ensino. É esse o papel da regional: dar as condições para a escola cumprir a sua missão, fazer o seu trabalho bem feito ali na sua comunidade”, conclui Daniel.

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