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Para jovens, pandemia reforçou importância do professor e contribuiu para maior autonomia nos estudos

02/09/2020 | Editado em 02/09/2020 17:25

No último dia 26 de agosto, completamos seis meses do início da pandemia de Covid-19 no Brasil, quando foi registrado o primeiro caso da doença em São Paulo. É quase o mesmo tempo em que as escolas estão com as portas fechadas, já que semanas depois redes de ensino de todo o País interromperam suas atividades presenciais e se reorganizaram, com maior ou menor agilidade, para que o ensino tivesse continuidade mesmo que a distância.

Em meio a tantas tristezas e perdas provocadas pela doença, já é possível tirar algumas lições desse prolongado período de ensino remoto e que devem permanecer mesmo com o retorno das aulas presenciais. Para captar os aprendizados adquiridos em meio a esse contexto na visão dos jovens, ouvimos alguns estudantes de Ensino Médio da rede pública de diferentes estados e destacamos aqui os principais aspectos mencionados por eles. O texto inaugura a série Aprendizados do ensino remoto, que nas próximas semanas deve trazer também o ponto de vista de professores, diretores e gestores das secretarias de Educação.

Valorização da escola

Um primeiro ponto comum na fala dos jovens é a questão da valorização do professor e da escola como um todo. A impossibilidade de contar com a presença do docente evidenciou para os estudantes a relevância do papel desempenhado por ele. “Querendo ou não todo adolescente tem um ‘rancinho’ da escola pelo menos um pouquinho… E hoje que a gente não pode ter aulas presenciais acaba mostrando para a gente o quanto faz falta”, afirma Nalanda Sales, 17, que cursa o 2º ano do Ensino Médio no Instituto de Educação de Minas Gerais, em Belo Horizonte (MG).

“A gente vê nesse momento que estamos passando que o professor está se esforçando, está ali, pronto para responder a nossa pergunta no what’sapp, para sanar a nossa dúvida, pronto para gravar aula ao vivo… Acho que o maior aprendizado é isso mesmo de valorizar o professor, a escola, os momentos físicos que você tem com seus professores, sua coordenação, sua diretoria. Esse é o maior aprendizado de todos”, pensa Francisca Andreia da Costa Ferreira, 17, que está no 3° ano do CETI Didácio Silva, em Teresina (PI).

As falas dos estudantes de certa forma confirmam um dos resultados da 3ª fase da pesquisa “Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus no Brasil”, divulgada nesta segunda (31) pelo Instituto Península. Segundo o levantamento, que contou com a participação de mais de 3.800 docentes, 72% dos entrevistados afirmaram se sentir mais valorizados pela sociedade.

Um outro ponto mencionado em relação à atuação do professor foi a incorporação – ainda que compulsória e sem a formação adequada – da tecnologia no processo de ensino e aprendizagem. “Alguns professores não estavam imersos nesse universo das mídias sociais e agora eles precisam ter o conhecimento pelo menos do básico dessas tecnologias. É algo que vai ficar”, acredita Francisco Matheus Bezerra Silva, 18, aluno do 3° ano da Escola de Ensino Médio Fenelón Rodrigues Pinheiro, de Solonópole (CE).

“Os professores se adaptaram. Além de professores, são youtubers, porque eles gravam vídeos, e são tutores, porque precisam acompanhar diariamente o desenvolvimento dos seus alunos dentro de sala de aula virtual”, explica.

Autonomia nos estudos

E se por um lado os professores foram “forçados” a mergulhar no universo das ferramentas digitais para exercerem o ofício, os estudantes se viram, de uma hora para a outra, desafiados a aprender de uma forma diferente: pela tela do computador ou do celular. “Tive que aprender a prestar atenção, porque eu tenho um pouco de déficit de atenção. Eu não conseguia ver um vídeo sem tirar meus sentidos dali…  Tive que aprender a ficar ali focada para não perder o fio da meada, entender tudo o que o professor está falando. Essa foi uma habilidade que eu fui obrigada a desenvolver”, relata Andreia, como prefere ser chamada, de Teresina.

“Não é só saber mexer no aplicativo onde está acontecendo a aula. É mais sobre entender o conteúdo que o professor está ministrando, é sobre a resolução das atividades. Porque a gente está aprendendo sozinho, digamos assim, não temos a presença do professor para tirar dúvidas a todo momento”, explica Eva Cristina Bragança Abreu, 16, que cursa o 2º ano do Ensino Médio no Centro de Educação em Período Integral (CEPI) Dom Veloso, em Itumbiara (GO).

Uma outra habilidade que os estudantes tiveram que desenvolver foi a de organização e estabelecimento de uma rotina de estudos.

“Você está ali na sua casa sozinho, tem que saber que tem que dar conta de tal atividade para tal dia. É bem difícil”, considera Andreia.

Apesar da dificuldade, Matheus, de Solonópole, acha que esse protagonismo estudantil estimulado pelo contexto atual foi um ganho.

“Quando a gente perdeu a presença do professor, tivemos a oportunidade de nos tornarmos donos dos nossos próprios estudos e fazer com que eles sejam melhores para nós”, avalia.

Ele trabalha como atendente em uma farmácia de manhã, estuda 1h30 à tarde e volta para o trabalho. E quando retorna para casa às 10h da noite, realiza as atividades enviadas pelos professores. Quando tem dúvidas, como é tarde, procura esclarecê-las com os professores no dia seguinte.

Em webinário promovido pelo Instituto Unibanco no dia 12 de agosto, o estudante Johab Fidélix, 19, do 3° ano da Escola Isabel Barbosa Vieira, em Touros (RN), admitiu que desenvolver essa autonomia nos estudos esse tem sido o seu maior desafio. “Saí pesquisando formas de organizar os estudos de uma forma que não fique tão pesada”, relatou. Achou um aplicativo gratuito que o ajuda nessa tarefa e também montou uma planilha no seu quarto com todos os horários.

“Acredito que as pessoas, com um pouco de foco, determinação, conseguem sim organizar um horário que dê para fazer tudo com calma”, pensa.

Mas nem todos os jovens conseguiram lidar bem com essa questão, como é o caso de Nalanda.

“Antes eu tinha uma rotina de estudo, hoje em dia, com a pandemia, que eu tenho as 24 horas do meu dia para fazer tudo, não tenho mais essa rotina e não consigo desencadear isso com a mesma facilidade que tinha antes”, afirma.

Maior interação

O isolamento social imposto pela pandemia, paradoxalmente, também contribuiu para a aproximação e o estreitamento dos laços entre os estudantes e entre estudantes e professores. “Virtualmente todo mundo segura a mão de todo mundo. Antes tinha muita panelinha e hoje em dia todo mundo conversa com todo mundo”, conta Nalanda.

Ela relata que a sala conta com um grupo de whatsapp desde 2017 que antes do fechamento da escola servia mais para o envio de recados de professores e hoje é um espaço para troca de ideias sobre conteúdos disciplinares e de suporte e esclarecimento de dúvidas entre os alunos.

Além da aproximação entre estudantes e professores, o uso mais massivo de ferramentas digitais também proporcionou momentos de interação e reflexão antes impensáveis.

“Uma ação que tivemos foi uma conferência em que os professores de História, Geografia, Filosofia e Sociologia se reuniram com os alunos da escola para debater sobre o contexto atual – coisa que não seria possível na forma presencial, porque nossa escola não tem condições de reunir todos os 620 alunos em um só momento e a gente não teria a oportunidade de debater com todas as classes”, lembra Matheus.

Ele menciona ainda os colóquios virtuais realizados pela Secretaria Estadual de Educação do Ceará, com a participação de estudantes e profissionais das 20 regionais da rede, além de cursos e seminários que acompanhou a distância – prática que já incorporou à sua formação. Entrou em um cursinho pré-vestibular virtual, cujas aulas acompanha pelo Google Meet.

As consequências negativas desse período de isolamento social e privação da rotina escolar são imensas e devem perdurar ainda por muito tempo segundo especialistas. Mas reconhecer os caminhos encontrados pelos diferentes atores educacionais para lidar com as adversidades e identificar o que é possível tirar de aprendizado é também uma forma de nos fortalecermos para nos adaptar ao chamado “novo normal”.

 

 

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