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Secretarias traçam estratégia de comunicação para reduzir insegurança de pais, alunos e professores

14/08/2020 | Editado em 14/08/2020 15:18

Retomada: medo da maior parte das famílias e a resistência de professores criaram um desafio adicional aos gestores

Com mais de 105 mil mortes no país, a pandemia de covid-19 mobiliza alunos, pais e profissionais da educação em meio ao debate sobre a retomada das aulas presenciais. O medo da maior parte das famílias e a resistência de professores criaram um desafio adicional aos gestores. Além de seguir diretrizes das autoridades sanitárias, garantindo que o retorno se dê com segurança, é preciso traçar estratégias de comunicação para responder às incertezas da comunidade escolar.

O Instituto Unibanco ouviu representantes de diferentes Secretarias de Educação para saber como estão lidando com a nova situação. Até a primeira quinzena de agosto, entre as 26 redes estaduais e a do Distrito Federal, apenas uma já havia retomado as aulas presenciais: a do Amazonas, ainda assim, somente na capital, Manaus.

A presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Cecilia Motta, diz que a maioria dos estados está criando comitês com a participação de prefeituras, sindicatos, órgão de controle, Ministério Público e Defensoria Pública, entre outras entidades e instâncias de governo e da sociedade, para elaborar protocolos e discutir o tema.

“A decisão de retomada não pode ser de uma pessoa só nem de duas. A maioria tem feito essa articulação”, afirmou Cecilia, que é secretária de Mato Grosso do Sul. A rede sul-mato-grossense, segundo ela, não retornará tão cedo às aulas presenciais. “Mato Grosso do Sul está no pico da pandemia, nem pensar em voltar.”

No Ceará, a reabertura das escolas estava prevista para julho, na fase 4 de retomada das atividades econômicas. Ao perceber a falta de consenso e a intensidade das resistências, o governo estadual suspendeu a retomada. E deu início a uma ampla discussão com representantes de dentro e de fora da escola.

O secretário executivo de Ensino Médio e Profissional do Ceará, Rogers Vasconcelos Mendes, resume assim a complexidade do atual momento: “Estamos entre dois direitos: o direito à vida e o direito à escola”, diz ele. “Os estudantes e os professores precisam se sentir seguros no retorno. Não só na escola, mas no trajeto, onde muitas coisas podem acontecer. A gente está buscando construir um diálogo.”

O processo de escuta da sociedade se dá em pelo menos três níveis: no âmbito da Secretaria de Educação, foi criado um comitê consultivo, com representantes de 16 órgãos e entidades, como Ministério Público, Defensoria Pública e sindicatos patronais e de trabalhadores. Em todo o estado, foram instalados também 23 comitês estaduais, e a mesma lógica orienta o debate em cada escola, onde todos os segmentos têm voz. A discussão gira em torno de uma proposta de protocolo de retorno elaborada pelo governo estadual.

Rogers destaca o cenário de indefinição na maior parte do país. “Cada município e cada estado enfrenta momentos diferentes da pandemia. Alguns marcaram datas [de retorno], depois adiaram. E tem a interferência da Justiça, como no Rio de Janeiro, onde o Tribunal de Justiça suspendeu o decreto municipal [de volta às aulas na rede particular]. Isso tudo cria muita especulação e a sensação de que, talvez, não tenha chegado o momento”, afirma o secretário executivo.

Ele lembra que o Conselho Nacional de Educação autorizou que o ensino remoto seja considerado para o cumprimento da carga horária obrigatória. Desse modo, raciocina, o direito à educação poderia ser efetivado remotamente, caso não seja possível reabrir as escolas tão cedo.

Diante de tantas incertezas, a rede estadual prepara um plano de comunicação, com apoio do Instituto Unibanco. O secretário executivo diz que seria “sensato” dar às famílias a opção de que os alunos concluam o ano letivo na modalidade remota. “As famílias vão ter que dividir com a gente a decisão sobre a retomada”, afirma, ressaltando que há grupos a favor e contra a reabertura das escolas. E acrescenta: “A gente não pode assumir a postura de voltar a qualquer custo. A palavra-chave é pactuação. Por isso a gente criou os comitês escolares.”

Amazonas

Em 10 de agosto, as escolas estaduais de ensino médio voltaram a receber alunos na cidade, em sistema de revezamento, em que cada estudante comparecerá duas vezes por semana. No próximo dia 24, será a vez das escolas de ensino fundamental, também na capital.

Na semana anterior à reabertura, o governo do Amazonas lançou campanha publicitária, com ênfase nas medidas de segurança para evitar a disseminação do novo coronavírus. Um dos slogans é: “Com os devidos cuidados, tudo vai dar certo”.

Um vídeo da campanha informa que os alunos receberão máscaras reutilizáveis e mostra equipamentos de proteção, como tapete desinfetante para a sola dos calçados, dispensador de álcool em gel para as mãos (acionável com o pé) e pia com torneira que pode ser aberta com o braço.

Gravado em uma escola, o vídeo contém cenas de estudantes com máscaras. Na hora do reencontro, eles substituem o abraço pelo toque dos cotovelos. O locutor diz em off: “Alunos, pais e professores podem ficar tranquilos. Dentro de sala de aula também haverá distanciamento e normas de segurança para o bem-estar de todos.”

A diretora-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), Rosemary Costa Pinto, gravou depoimento em que dá ênfase às medidas protetivas. Ela faz referência ao trabalho conjunto do órgão de saúde com a Secretaria de Educação (Seduc). “A FVS e a Seduc desenvolveram um conjunto de normas para garantir a segurança no retorno às aulas. Cumprindo o protocolo, vai dar certo”, diz Rosemary.

O diretor do Departamento de Gestão Escolar da Secretaria de Educação amazonense, Júlio Meireles, destaca o esforço na preparação do Plano de Retorno às Atividades Presenciais. Milhares de pais, gestores, professores e demais profissionais da educação foram ouvidos nos últimos meses. O objetivo da consulta foi conhecer as principais preocupações de cada segmento. De acordo com Meireiles, o Plano de Retorno foi apresentado ao sindicato e a uma associação de professores, para que também pudessem opinar.

Direito à aprendizagem

No início de julho, a reabertura das escolas particulares de Manaus ajudou a rede estadual, nas palavras do diretor, a “plantar a semente” da retomada das aulas presenciais. “Desde a volta da rede privada, intensificamos a comunicação, já apontando que iríamos voltar em algum momento”, diz Meireles. Segundo ele, quase 30% dos professores da rede estadual também lecionam na rede privada.

Na terça-feira (11), a Secretaria de Educação do Amazonas divulgou que 94% dos professores do ensino médio haviam retomado as atividades presenciais, o equivalente a 4.520 docentes. A pasta informou que tomaria providências para substituir quem faltou, a fim de garantir o funcionamento de todas as escolas.

Meireles afirma que a retomada das aulas presenciais reflete a preocupação com a aprendizagem dos alunos. Manaus tem cerca de 100 mil matriculados na rede estadual de ensino médio. Durante o período de aulas remotas, porém, um levantamento da Secretaria da Educação revelou que cerca de 20 mil estudantes não estavam assistindo às aulas transmitidas pela internet e pela TV aberta.

O diretor observa que fatores como a falta de conexão à internet e de ambiente adequado para estudar em casa, bem como a necessidade de trabalhar ou de cuidar dos irmãos menores impedem muitos alunos da rede pública de estudar. Nas escolas particulares, porém, a situação é outra, o que agrava desigualdades educacionais.

“Nossos alunos são os menos favorecidos, e precisamos equalizar essas diferenças com os da rede particular, que serão seus concorrentes no Enem. Esse é um argumento para mostrar que a gente tem que voltar, temos que estar na mesma página”, diz Meireles.

A campanha publicitária segue o mesmo caminho: “Com a retomada presencial, o ensino ganha em qualidade e a educação cumpre seu papel transformador, trazendo esperança de um futuro melhor para nossas crianças e jovens”, diz o vídeo.

Busca ativa

As turmas foram divididas em dois grupos nas 123 escolas de ensino médio na capital amazonense. Um grupo deve comparecer às segundas e quartas-feiras e o outro, às terças e quintas. Nos demais dias, a ideia é que continuem estudando remotamente. Às sextas-feiras, somente os professores deverão ir à escola, para analisar a situação individual de cada aluno e das turmas, em termos da aprendizagem e da necessidade de reforço.

Um dos argumentos para sensibilizar os professores, de acordo com Meireles, é que o período de aulas remotas contou no calendário letivo, de modo que não será necessário trabalhar aos sábados nem em feriados para completar a carga horária. Além disso, a pasta da educação está sendo a última a retomar o trabalho presencial na estrutura administrativa do estado.

Meireles conta que, no primeiro dia de aula, 52% dos estudantes compareceram. Esse percentual logo subiu para 60%. A expectativa é que os índices de comparecimento cresçam nas próximas semanas, como resultado de uma campanha de busca ativa para atrair quem não regressou. A campanha está nos meios de comunicação. As escolas também se valem dos grupos de WhatsApp e da plataforma de ensino remoto. A ideia é fazer contato ainda por telefone e redes sociais.

O diretor aposta no efeito da comunicação boca a boca, à medida que mais alunos forem voltando. “A escola está com um ambiente seguro, muito mais do que outros lugares onde o estudante possa estar, como feiras ou shoppings. Vamos demonstrar isso, e os colegas que já voltaram serão os mensageiros”, diz Meireles.

A Secretaria de Educação do Amazonas tem divulgado notícias, em sua página na internet, com depoimentos de estudantes sobre o reinício das aulas presenciais. “Eu estava estudando em casa, só que agora ficará bem mais fácil com o apoio do professor para poder tirar minhas dúvidas aqui no colégio, o que acaba até me motivando mais um pouco a continuar meus estudos”, disse na segunda-feira (10) o aluno Gabriel Guilherme, da Escola Estadual Jacimar da Silva Gama.

São Paulo

Na rede estadual paulista, o secretário-executivo da Secretaria da Educação, Haroldo Corrêa Rocha, considera natural que as famílias, os alunos e os profissionais da educação tenham receio do novo coronavírus. Afinal, não há vacina nem cura para a Covid-19. E, uma vez infectado, cada organismo reage de um jeito, variando da ausência de sintomas até o óbito.

Para Haroldo, contudo, há pelo menos dois fatores que vão pesar de maneira decisiva para fazer diminuir o medo dos pais de alunos e dos profissionais da educação, contribuindo para a volta ao ensino presencial. De um lado, a melhoria dos indicadores da pandemia, com a queda do número de mortos e de hospitalizações. Do outro, a confiança nos protocolos de segurança sanitária que serão implementados nas escolas.

Em outras palavras, o tempo joga a favor da retomada. “À medida que isso [redução de mortes e de hospitalizações] for se confirmando, semana a semana, as pessoas perceberão que a pandemia está regredindo. E, com o medo abrandando, elas vão se dispor a retomar as aulas presenciais”, diz o secretário executivo.

Ele considera essencial demonstrar a seriedade e eficácia dos protocolos. Nesse sentido, afirma que a reabertura voluntária de escolas a partir de 8 de setembro, nas regiões que já tiverem cumprido a meta do Plano São Paulo (pelo menos 28 dias na fase amarela, a terceira de cinco), permitirá testar os procedimentos.

Haroldo lembra que cada uma das 5,1 mil escolas estaduais terá um comitê de fiscalização dos protocolos, formado por um professor, um funcionário administrativo e um pai ou mãe de aluno. Está em estudo também criar um questionário eletrônico sobre sintomas da Covid-19, a ser respondido diariamente pelos estudantes e suas famílias, por WhatsApp. A ideia é que, em caso de suspeita da doença, o estudante não vá para a escola e busque atendimento do serviço de saúde.

O secretário-executivo observa também que retomada das aulas presenciais será escalonada, com limite de 35% e, depois, de 70% dos alunos na escola, a cada dia. Nessas etapas, as famílias terão a opção de que seus filhos permaneçam exclusivamente no ensino remoto. “Está bem flexível”, diz Haroldo. “O que a escola não pode fazer é brigar com a família: tem que dar tempo para superar o medo.”

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