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Adequação ao ensino híbrido passa por priorização curricular

04/12/2020 | Editado em 03/06/2021 17:38

Diante dos prejuízos causados pela pandemia de Covid-19 no atual ano letivo, gestores traçam estratégias para recuperar a aprendizagem e otimizar o ensino a partir de 2021. Uma delas é a priorização curricular, que consiste em definir habilidades e conteúdos essenciais cuja aprendizagem deverá ser garantida a todos os estudantes.

A premissa é que o ensino remoto e mesmo o ensino híbrido não oferecem condições para que todo o currículo seja trabalhado de maneira satisfatória em meio à pandemia. Ainda mais que boa parte do esforço das escolas e das redes, em 2021, terá foco na recuperação da aprendizagem e na superação de lacunas do atual ano letivo.

Pensando nisso, diversas redes deram início à reorganização curricular e planejam adotar a priorização no próximo ano. A iniciativa foi recomendada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) ainda em julho, no parecer 11/2020.

O parecer do CNE trata da reabertura das escolas. Com base na experiência internacional, faz referência à flexibilização curricular, por meio da “seleção dos objetivos ou marcos de aprendizagem essenciais previstos para o calendário escolar de 2020-2021; foco nas competências leitora e escritora, raciocínio lógico matemático, comunicação e solução de problemas”.

O primeiro desafio é estabelecer quais conteúdos e quais habilidades farão parte desse modelo reduzido de currículo. Ou seja, o que os educadores consideram mais importante e, portanto, imprescindível para o desenvolvimento escolar dos alunos nas atuais condições de ensino.

Entrevistado pela revista Nova Escola, o professor titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) Nilson José Machado falou sobre como estruturar currículos para recuperar a aprendizagem de 2020. Machado referia-se à adoção de currículos contínuos para orientar o ensino-aprendizagem nos anos letivos de 2020 e 2021, especialmente nas redes que optarem pelo chamado continuum − organização do calendário escolar em que esses dois anos letivos viram um bloco só, conforme já detalhamos aqui.

O raciocínio de Machado, que é livre-docente em epistemologia e didática, ajuda a pensar também a priorização curricular. Ele recomenda que se tenham em mente as “ideias fundamentais” a serem trabalhadas com os alunos. Assim, conforme mostrado pela Nova Escola, a seleção de conteúdos deve levar em conta três aspectos: conexão com a vida real, articulação com outros objetos de estudo da mesma área (conteúdo indispensável para avançar na aprendizagem) e diálogo com outros componentes curriculares (interdisciplinaridade).

Piauí

No Piauí, a rede estadual vai adotar a priorização curricular em 2021. O trabalho começou em julho e resultou na definição de um “currículo priorizado” para as séries do Ensino Fundamental e do Ensino Médio.

A coordenadora do Programa de Alfabetização na Idade Certa da Secretaria de Educação do Piauí, Gabriela Oliveira, conta que a seleção de conteúdos e habilidades deu ênfase à ideia de progressão e interdisciplinaridade.

“Fizemos a seleção de habilidades que conversam entre si e que trabalham a progressão: habilidades que são pré-requisito, que o aluno não pode deixar de desenvolver para passar para o ano seguinte”, diz Gabriela.

Segundo ela, a proposta é que haja um encadeamento de conteúdos ao longo do ano letivo, de maneira que as habilidades desenvolvidas no primeiro bimestre dialoguem com as do segundo e assim sucessivamente. A priorização foi feita para cada componente curricular.

“Não é um trabalho fácil, mas a gente buscou garantir que nossos alunos sofram o menor impacto possível durante a pandemia”, afirma a coordenadora. “Sabemos que vai demorar um pouco para recuperar este ano.”

Gabriela destaca também que a priorização curricular está alinhada à necessidade de avaliações externas, que servirão para identificar as defasagens de aprendizagem e os resultados dos esforços de recuperação. O objetivo é que haja um mínimo de uniformidade na rede estadual, isto é, que os professores tenham como referência diretrizes comuns a todos.

Durante a pandemia, com a impossibilidade de cumprir a totalidade de conteúdos previstos para o ano, a Secretaria de Educação procurou saber como os professores estavam preparando suas aulas e definindo o que seria ensinado. Por meio de questionários, a secretaria constatou que havia professores seguindo o livro didático, enquanto outros se baseavam em diretrizes curriculares de 2017. Um terceiro grupo adotava o novo currículo, cuja implementação deveria ter ocorrido em 2020, mas acabou suspensa devido à suspensão das aulas presenciais.

“Cada um estava usando um documento diferente, e vimos o quanto isso era prejudicial, porque a gente está prevendo avaliação externa da rede. O que a gente ia usar para a avaliação, se cada professor estava se baseando em um documento diferente?”, lembra Gabriela. “Vimos, então, que fazia sentido ter um documento priorizado, porque aí os professores não precisariam mais fazer o seu recorte do currículo.”

Webinário

A priorização curricular foi tema de webinário no último dia 26 de novembro, no Canal Educação, uma plataforma criada pelo governo do Piauí para levar conteúdo às escolas em todo o território. O consultor educacional João Cêpa chamou atenção para o tamanho do desafio que as redes de ensino têm pela frente, considerando a variedade de situações vivenciadas pelos alunos no ensino remoto, ao longo deste ano.

Cêpa destacou que houve estudantes que puderam acessar as aulas on-line, enquanto outros, não. Da mesma forma, o contato dos alunos com os professores, a chamada mediação pedagógica, foi completamente distinta: quem acompanhou as aulas pela internet teve maior interação do que quem fez somente as atividades impressas.

“Os alunos não vão voltar para as escolas com as mesmas defasagens, porque tiveram acesso de forma muito desigual”, disse ele. “A gente quebrou princípios importantes da educação, como o da equidade, quando não fomos capazes, enquanto sistema, de garantir que os alunos teriam acesso às mesmas aprendizagens, com o mesmo padrão de qualidade, já que as escolas foram pulverizadas e levadas para dentro da casa dos nossos alunos.”

Cêpa, que é consultor da Fundação Lemann, lembrou que alunos do Ensino Fundamental, principalmente dos anos iniciais, podem ter enfrentado mais dificuldades para se adaptar ao novo modelo de ensino.

“A presença do professor como mediador do processo pedagógico caiu demais: ele foi substituído pelas mensagens do impresso, pelo zap. Aulas síncronas [ao vivo] não foram a regra.”

A consequência, segundo ele, é que os alunos, de modo geral, tiveram menos tempo de exposição aos processos de ensino-aprendizagem:

“Antes passavam quatro a cinco horas na sala de aula, em um processo desenhado para que a aprendizagem acontecesse. Agora dependia de ferramenta [digital], da família, elementos que fogem da governabilidade. Muitas vezes se planejou e estimou cargas horárias muito maiores do que foi na prática.”

É diante dessa realidade que a priorização curricular cumpre a função de readequar o ritmo. “É uma forma de repensar o percurso do aluno baseado nas condições efetivas em que ele se encontra.”

Saiba mais:

Webinário Reorganização dos processos de ensino-aprendizagem para 2021 (Instituto Unibanco)

BNCC: como priorizar as aprendizagens de 2020 e 2021? (Revista Nova Escola)

Webinário Novos olhares sobre Currículo e desdobramentos para correção de fluxo (Seduc-PI)

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