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Como as escolas do Uruguai e dos EUA enfrentaram os desafios da pandemia

19/11/2020 | Editado em 04/12/2020 18:25

Os investimentos de mais de uma década na educação digital no Uruguai contribuíram para tornar o país mais resiliente frente aos desafios do ensino remoto na pandemia. Desde 2007, com o lançamento do Plano Ceibal, discentes e docentes da rede pública recebem um notebook ou tablet para uso pessoal, têm conexão à internet gratuita em todas as escolas e acesso a plataformas online com conteúdo educacional.  

A iniciativa diminuiu consideravelmente o gap digital. Desde o início do projeto até 2011, o acesso a um computador por criança de 6 a 13 anos aumentou, em média, de 30% para 94%. Nas famílias de baixa renda, o salto foi mais expressivo: de 9% para 93%. Até 2018, foram entregues 2 milhões de laptops e tablets. A rede de videoconferência do projeto conecta, ainda, mais de 1.500 centros educacionais.  

O projeto foi fundamental para manter a aprendizagem das crianças durante a suspensão das aulas e a reabertura em fases, proporcionando mais equilíbrio entre o presencial e o online. Isto porque, para além da conectividade e computadores, o Plano Ceibal também se preocupou em oferecer treinamento em metodologias mais centradas no estudante e para além da sala de aula, por meio de suas plataformas digitais. 

Apoio técnico e social

Para auxiliar estudantes e famílias com menos familiaridade na aprendizagem virtual, colaboradores da escola e orientadores técnicos receberam apoio do Plano Ceibal. Além da plataforma online Crea, foram utilizadas mídias locais (rádio e TV) e celulares (especialmente WhatsApp) para contato com os docentes. A continuidade da oferta de benefícios não educacionais, como por exemplo merendas, foi importante para manter o vínculo com a escola, especialmente nas famílias mais vulneráveis.  

O Uruguai foi um dos primeiros países do mundo a reabrir as escolas. A abertura se deu por fases. No final de abril, foram as escolas rurais, depois as escolas com alunos vulneráveis e, por fim, no final de junho, todas as escolas. A frequência presencial é voluntária. Para a reabertura, também foram identificados e solucionados os casos com problemas de transporte para se chegar à escola com segurança. Leia abaixo lições aprendidas da experiência uruguaia destacadas pela UNICEF. 

  1. Flexibilidade e adaptabilidade. A pandemia exige flexibilidade para tomar decisões e elaborar políticas educacionais. Os docentes adaptaram as disciplinas e práticas de ensino e tiveram autonomia para tomar decisões em suas turmas. O Plano Ceibal, a UNICEF e a Administração Nacional de Educação Pública – ANEP ofereceram treinamento para habilidades digitais a longo prazo. 
  2. Equidade para além das tecnologias. O governo, em parceria com a UNICEF, desenvolveu uma campanha inclusiva de volta às aulas, com auxílio financeiro para estudantes com maior potencial de evasão devido à crise econômica.
  3. O aprendizado totalmente remoto “não é um substituto para sempre”. Inevitavelmente, a aprendizagem digital provavelmente complementará a educação presencial nos próximos anos. Mas o contato presencial é incomparável.  

Para o momento atual, com as especificidades da pandemia, o Plano Ceibal recomenda uma atenção especial aos seguintes pontos: 

  1. Priorize áreas curriculares essenciais e vincule-as a problemas da vida real por meio da aprendizagem baseada em projetos.  
  2. Desenvolva dinâmicas de avaliação formativas e deixe bem claros os objetivos de aprendizagem.  
  3. Apresente aos educadores propostas de organização autônoma de trabalho, principalmente para quando não se está no centro educacional. Para os estudantes, ajude com estratégias para organizar o tempo de aprendizagem em casa. 

Distritos escolares americanos compartilham experiências com adoção do digital na pandemia

Enquanto o cenário para uma vacina para a COVID-19 ainda é incerto, muitas escolas devem adotar alguma forma de aprendizagem a distância combinada com as aulas presenciais. Para isso, além de soluções de tecnologia educacional, é preciso desenvolver um mindset digital e um planejamento para saber como aproveitar melhor a virtualização dos dados e minimizar riscos de reprodução de desigualdades.  

A Dra. Kecia Ray, pesquisadora em tecnologia e transformação educacional, mediou diversos webinários para debater como as escolas americanas estão usando as ferramentas tecnológicas para aprendizagem. Os eventos online foram promovidos pela Tech&Learning (publicação especializada em “ed tech” do grupo de mídia inglês Future plc). Leia abaixo as principais abordagens de distritos escolares do Texas e de Nova York.  

Texas

Os palestrantes destacaram três pontos-chave na sessão. Participaram: Sallee Clark e Jeni Longo, tecnologistas em educação e Kirk Murdoch, diretor de tecnologia, todos do distrito escolar de Eagle Mountain – Saginaw ISD; e Steven Halliwell, diretor de produtos do Promethean. 

  • Consistência é a chave. Os 21 mil estudantes do distrito escolar Eagle Mountain – Saginaw ISD, no Texas, começaram o ano letivo remotamente e, no dia 8 de setembro, voltaram às aulas presenciais em tempo integral ou parcial. O desafio do corpo docente é mostrar o mesmo conteúdo para os que estão em casa e os que estão na sala de aula. Para isso, estão sendo utilizadas ferramentas como os quadros do Promethean e o bloco de notas OneNote, integradas ao Microsoft Teams 
  • Resposta rápida. Logo que foi declarada a pandemia do novo coronavírus e a suspensão das aulas, Kirk Murdoch relembra que tiveram 24 horas para ir do aprendizado presencial para o remoto. Quando o ano letivo acabou (nos Estados Unidos geralmente as aulas encerram-se em maio e iniciam-se em agosto/setembro), houve um respiro para um planejamento a fim de preparar discentes e docentes no aprendizado remoto. Foram oferecidos treinamentos e suporte para tirar dúvidas sobre as tecnologias usadas. 
  • É na adaptação que a mágica acontece”. De acordo com uma pesquisa da Promethean, apenas 20% dos educadores estavam prontos para implementar o aprendizado remoto quando a pandemia se iniciou. Para Steven Halliwell, a transformação observada foi algo incrível de se ver.  Um dos maiores desafios da aprendizagem a distância continua a ser a exclusão digital. Halliwell recomenda “copiar do melhor”, observar o que as outras escolas têm feito e incorporar as melhores práticas de aprendizagem remota em seus próprios planos. 

Nova York

O Departamento de Educação da cidade de Nova York (NYCDOE) lançou um programa de aprendizagem remota no maior distrito escolar dos EUA (com mais de um milhão de estudantes) em uma semana. Neste período, foram realocados computadores, oferecidos treinamentos para os educadores e disseminada uma biblioteca com fontes online selecionadas por uma curadoria especial. Richard Carranza, chanceler de escolas responsável pelo distrito escolar de Nova York, resume os principais pontos da iniciativa: 

  1. O desafio da equidade. Primeiramente, garantiram que todos os discentes tivessem o e-mail do NYCDOE e vice-versa. Depois, escolheram plataformas da Google para aprendizagem e comunicação da equipe, para que todos se sentissem confortáveis. Sobre o ensino remoto, o prefeito Bill de Blasio disse que melhoraria a cada semana; o que vem acontecendo.
  2. A importância de agir rápido. Foi criado um calendário de aprendizagem remota com várias sessões “como fazer” ao vivo. Foram treinados 25.000 colaboradores em cerca de um mês. Para os estudantes que não tinham acesso à internet ou um dispositivo (computador ou tablet), o distrito distribuiu mais de 100.000 iPads até abril de 2020. 
  3. Construindo parcerias. As parcerias com fornecedores parceiros e educadores mais experientes para entender melhor como funcionam as plataformas de aprendizagem foi essencial. 
  4. Apoiando educadores. Além do suporte às ferramentas de aprendizagem remota, tem sido oferecido apoio para a saúde mental. 

Abordagem centrada nos estudantes

Segundo a Dra. Kecia Kay, para a aprendizagem que combina presencial e online, uma abordagem centrada no estudante é fundamental. São itens críticos: espaços flexíveis de aprendizagem, ensino mediado por computador, avaliações formativas e instruções claras dos educadores. Além disso, estudantes devem ser ouvidos e é importante considerar todos os aspectos da socialização, saúde mental e comunicação, bem como aprendizagem socioemocional e competências. Em um ambiente virtual, esses aspectos podem ser mais difíceis de rastrear e monitorar. A imagem abaixo resume estes pontos.  

Acesse aqui para saber mais sobre o Plano Ceibal. 

Confira o relatório da Unesco sobre educação durante e além da COVID-19 (em inglês).  

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