TOPO

Professores destacam uso da tecnologia no ensino e aproximação com as famílias como “legado” da pandemia

10/09/2020 | Editado em 17/09/2020 13:37

 

A Covid-19 criou uma situação inédita, fechando escolas não só pelo País mas no mundo todo. Por aqui, já são quase seis meses sem aulas presenciais. No momento em que algumas redes já começam a voltar, o Instituto Unibanco ouviu dessa vez professores para saber o que aprenderam durante a pandemia − e como essa experiência pode melhorar a educação na retomada das aulas presenciais. O texto é o segundo da série Aprendizados do ensino remoto.

Leia também: Para jovens, pandemia reforçou importância do professor e contribuiu para maior autonomia nos estudos

No Piauí, a professora de Língua Portuguesa Fátima Luana Matos Furtado diz que o uso de recursos tecnológicos no ensino remoto deixará um legado transformador.

“Nenhum de nós, professores, será o mesmo. A gente teve que aprender muitas coisas novas”, afirma ela. “Formas diferentes de ensinar que eu não utilizava e que poderei usar na volta do ensino presencial, com resultados positivos.”

Fátima leciona para turmas de Ensino Médio na Unidade Escolar Antônio Deromi Soares, no município de Buriti dos Montes (PI), a cerca de 250 quilômetros da capital Teresina. Toda semana, ela passa atividades para os estudantes por meio da plataforma Google Sala de Aula. Às quintas-feiras, promove um encontro virtual para tirar dúvidas ao vivo, por vídeo, pelo Google Meet.

A professora destaca duas atividades que considerou bem-sucedidas: na produção de textos de cordel, cada aluno gravou um vídeo fazendo a leitura do próprio texto − e os vídeos foram compartilhados em redes sociais; ao falar sobre o modernismo na literatura brasileira, ela organizou uma webgincana em que os estudantes recorreram à internet para buscar as respostas a 20 perguntas da professora.

“São recursos que a gente já poderia estar usando. Veja o Google Classroom, existia antes do ensino remoto”, diz Fátima, que já imagina situações em que as ferramentas tecnológicas poderão ser úteis na retomada do ensino presencial. “Quando um aluno faltar à aula por doença ou problema no transporte escolar, por exemplo, posso postar todo o conteúdo daquele dia na plataforma, para que o aluno tenha acesso ao material.”

 ‘Banho tecnológico’

Na rede estadual de Goiás, a coordenadora pedagógica Fabíola Moreira, do Colégio Dom Fernando 1, em Goiânia, faz o mesmo raciocínio. Professora de biologia até o ano passado, Fabíola assumiu o novo cargo em janeiro de 2020, pouco antes da chegada do novo coronavírus. “A gente teve que se reinventar”, resume Fabíola.

A nova rotina incorporou aulas e reuniões virtuais, lives e postagens em redes sociais e uma intensa comunicação via WhatsApp. Quem não estava familiarizado com as tecnologias digitais teve que se reciclar, contando inclusive com a ajuda de colegas.

“Foi realmente um banho tecnológico para os professores e para a escola”, diz Fabíola.

A coordenadora pedagógica considera que os pontos positivos das ferramentas digitais deverão ser incorporados ao ensino regular. “Não tem como dizer que vamos esquecer tudo e voltar a como estávamos antes da pandemia”, afirma, enfatizando que a valorização dos recursos tecnológicos não significa, em hipótese alguma, desconsiderar nem desmerecer o ensino presencial.

Fabíola cita a lousa digital, que antes da pandemia não estava disponível na escola e só foi comprada por causa do ensino remoto. O equipamento foi instalado na sala de aula onde professores gravam videoaulas. “Ajuda muito, é como se você estivesse mexendo no computador em tempo real”, diz ela, elogiando a iniciativa da direção do colégio.

De acordo com a coordenadora, a ideia agora é que mais lousas digitais sejam adquiridas, já que se trata de um recurso útil em qualquer formato de ensino: remoto, híbrido ou 100% presencial.

Na rede pública do Distrito Federal, o professor Abdael Gaspar de Sousa leciona para alunos do 5º ano do Ensino Fundamental, na Escola Classe 09, na região administrativa do Gama. Desde que o ensino remoto teve início, ele fez cursos para se familiarizar com as ferramentas do Google. Seus alunos, crianças na faixa dos 10 anos, diz ele, demonstram enorme familiaridade com as novas mídias e com as redes sociais. O que acaba sendo um fator de empoderamento e autonomia.

Abdael conta que um deles produziu um telejornal no qual fazia o papel de apresentador e, em tom de denúncia, criticava os buracos de rua perto da sua casa. O vídeo foi postado no YouTube e apresentado aos colegas. A experiência mostrou a Abdael como o uso das novas tecnologias pode enriquecer a relação ensino-aprendizagem. Inclusive no sentido de tirar o professor da posição de quem supostamente sabe tudo.

“Eu não conseguiria mais dissociar essas ferramentas da minha prática pedagógica, elas estão presentes, tomamos conhecimento delas e um certo domínio. E os alunos também. O que agora podemos fazer é potencializá-las e adaptá-las para a vivência na sala de aula [presencial] ou extraclasse”, diz Abdael. “O ensino não precisa mais ser pensado somente como espaço físico, mas sim como todos os espaços ou momentos diferentes.”

 

Pais

Outro legado do ensino remoto, que pode até parecer contraditório à primeira vista, é a maior proximidade entre professores e uma parcela dos pais de alunos. À medida que a residência dos estudantes virou sala de aula, estreitou-se a comunicação entre as escolas e muitas das famílias. Até porque, mais que nunca, os pais viraram aliados dos professores para fazer avançar a aprendizagem dos filhos.

É o que relata o professor Phellipe Pereira do Nascimento, que leciona química e biologia na rede estadual do Ceará. “A gente tem conseguido um contato mais próximo com os pais. Até por conta também da preocupação de alguns deles. Não todos, mas alguns nos procuram para saber como os filhos estão indo”, conta ele.

Os grupos de WhasApp são o meio preferido de comunicação e, durante a pandemia, ganharam ainda mais relevância. O professor da rede cearense torce para que persista o atual estreitamento de laços das famílias com os profissionais da educação, mesmo após a retomada das aulas presenciais. “Espero que sim. A escola sozinha não é escola, precisa da comunidade toda”, afirma ele.

No Distrito Federal, o professor Abdael conta que é procurado por pais que dizem que seus filhos não entenderam determinado conteúdo − e que eles próprios também ignoram a matéria. “Aí a gente tem que criar um vínculo e uma outra estratégia pedagógica para ensinar o pai, a fim de que ele consiga resgatar o conteúdo para o filho”, diz o professor. Abdael conta que é comum alguns pais assistirem às suas aulas junto com os filhos. “Acho muito positivo.”

Na rede estadual de São Paulo, a professora Nilza Castro, da escola Justino Marcondes Rangel, no município de Ferraz de Vasconcelos, também tem contado com a participação de pais de alunos nas atividades remotas. Ela dá aulas de Geografia e leciona uma disciplina eletiva de gastronomia. Um dos temas transversais da escola é o meio ambiente e, para tratar disso, os alunos e suas famílias apresentaram seus animais de estimação, ao vivo, com a câmera do celular.

“Essa interatividade, essa troca de experiências eu quero levar para o pós-pandemia. Já pensei em vídeos com um pai de aluno, por exemplo, falando de onde a família veio, quando formos estudar as migrações. Ou, na aula de gastronomia, alguém apresentando receitas culinárias”, diz Nilza. “O ensino remoto encurta as distâncias: a gente consegue estar com várias pessoas unidas em um único lugar.”

 

Empatia

Phellipe, assim como os demais professores entrevistados nesta reportagem, destaca as dificuldades que muitos estudantes têm enfrentado na pandemia. Em inúmeros casos, a falta de conexão à internet e a impossibilidade de acompanhar as aulas remotas são apenas a ponta do iceberg.

“Os alunos desabafam com a gente”, diz ele. “Tenho relatos de muitas situações difíceis, até mesmo financeiras, de pais que ficaram desempregados e de famílias não terem o que comer.”

O professor dá aulas na escola Ana Facó, no município de Beberibe (CE), a cerca de 70 quilômetros de Fortaleza. Ele conta que alunos e profissionais se mobilizaram para distribuir cestas básicas aos estudantes em situação mais extrema. “O que mais vai ficar desta pandemia, para mim, é a palavra empatia. Empatia e respeito: procurar entender o outro, colocar-se na situação do outro”, afirma Phellipe.

Para ajudar alunos que dispõem de conexão precária à internet, o professor grava áudios curtos, no estilo de podcasts, que são enviados por WhatsApp.

No Piauí, Fátima conta que muitos estudantes de Buriti dos Montes moram na zona rural do município e não dispõem de acesso à internet. Por isso, a escola também disponibiliza material impresso. “Na pandemia, a gente presenciou mais de perto a grande desigualdade social do país. Tem gente que não tem acesso à internet. Outros têm, mas aí são três filhos na família e só um celular, sendo que um é aluno do Ensino Médio e os outros, do Ensino Fundamental.” Ela conclui: “Nosso olhar daqui para a frente vai ser diferente.”

Em Goiás, no Colégio Dom Fernando 1, o material impresso era inicialmente deixado num supermercado perto da escola, para que alunos sem conexão à internet pudessem continuar estudando. Atualmente, isso é feito na própria escola.

Já a professora Nilza, de Ferraz de Vasconcelos, na região metropolitana de São Paulo, diz que é preciso ter criatividade: no momento em que falava com um aluno por WhatsApp, pediu a ele que passasse um recado dela a um vizinho, estudante na mesma escola, que não tinha acesso à internet. Quando uma aluna disse que não tinha os ingredientes para fazer uma receita de cachorro-quente na aula virtual, a professora foi à casa dessa estudante levar os alimentos. “Não tivemos perda de alunos, mas familiares de alunos nossos morreram de covid-19. Temos que estar atentos e trabalhar também o socioemocional.”

 

Compartilhe esta notícia!