TOPO

Gestores do Ser Diretor falam sobre desafios profissionais trazidos pela pandemia

17/11/2021 | Editado em 17/11/2021 13:30

Nova edição da exposição “Ser Diretor” em cartaz no metrô República

exposição ser diretor

Em 2017, como uma homenagem aos gestores escolares e como forma de jogar luz sobre o papel fundamental exercido por esses profissionais, publicamos o livro Ser Diretor. A obra, de autoria do fotógrafo Eder Chiodetto, retrata – por meio de imagens e textos – o dia a dia de 30 gestores escolares de seis estados brasileiros (Ceará, Espírito Santo, Goiás, Pará, Piauí e Rio Grande do Norte).

Neste ano, para marcar o Dia do Diretor, celebrado em 12 de novembro, uma nova edição da exposição com imagens do livro abre hoje (17) na estação República do metrô da capital paulista. A iniciativa integra a campanha do Instituto em homenagem a esses profissionais.

Conversamos com dois então diretores retratados no livro Se Diretor para saber por onde andam. Ambos continuam na área da educação: um segue na direção da escola, o outro passou a ocupar um cargo de coordenação na Secretaria de Educação. Os desafios da gestão e as dificuldades e lições trazidas pela pandemia são alguns dos pontos abordados por eles sobre os aprendizados profissionais dos últimos anos.

Ana Lucia Vieira de Lima – diretora da EMTI Senador Fernandes Távora, Fortaleza (Ceará)

Ana Lucia Vieira de Lima, uma das cinco diretoras cearenses retratadas no livro, segue à frente da Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Senador Fernandes Távora, localizada em Fortaleza. Em 2022, completa 12 anos na direção e encerra um ciclo de 3 mandatos no cargo.

Como foi destacado no texto que descreve seu cotidiano em Ser Diretor, a disposição de Ana Lúcia para o diálogo com os estudantes segue a mesma. Mais do que abertura, ela demonstra satisfação em ouvir os jovens.

“Para mim é sempre um prazer passar o dia com eles aqui. Eu acho ruim quando não posso estar no meio deles, por conta de outras atribuições. A gente aprende muito mesmo, numa conversa…”, afirma.

Ela conta que descobriu recentemente que tem um aluno na escola que “atende” os colegas com problemas psicológicos.

“Os meninos têm liberdade de contar para ele os problemas e ele dá uma força pros colegas, diz que lê muito sobre isso. Ele diz que não pode dizer quem são, mantendo o sigilo e tudo o mais, tudo muito sério. Achei fantástico”, comenta.

“A gente se abrir a esse diálogo com eles, engrandece, a gente amadurece, aprende muito. A gente como professor acha que sabe das coisas mas não sabe muita coisa não…”, pensa.

Indagada sobre como foi fazer a gestão no contexto da pandemia, Ana Lucia relata que foram muitos os desafios e o trabalho e o esforço para manter o vínculo dos estudantes com a escola, imensos.

“Demanda muita energia, porque é preciso ouvir porque o menino está com problema, ter o cuidado de ler nos chats o que estão perguntando…Estava em todos os grupos de WhatsApp. Todos tinham meu contato”, conta.

“Todos crescemos nessa pandemia: os estudantes, os professores, eu como gestora… O grupo ficou muito mais unido, os estudantes se aproximaram muito dos professores, pedindo outro tipo de ajuda, [porque] eles começaram a se deprimir muito”, diz.

Além disso, Ana Lúcia enfrentou o desafio de receber um grupo de professores novos na escola e integrá-los ao corpo docente ainda de forma remota.

“Nas reuniões, eu sempre fazia questão de frisar a felicidade que eu estava de ter um grupo responsável, comprometido com a educação como o nosso”, afirma.

E atribui à dedicação deles o balanço positivo desse período:

“No meio de tudo isso, eu acho q a gente conseguiu, tanto é que os alunos estão de volta. Por conta de uma equipe, de um trabalho conjunto”, conclui. Segundo a diretora, nenhum dos 197 matriculados na escola evadiram.

 Alberto Machado Vieira – Coordenador das Escolas de Tempo Integral da Seduc/PI

Embora não seja mais diretor do CEMTI Didácio Silva, situada em Teresina (PI), como aparece retratado na publicação, muitos ainda se referem à escola como “a escola do prof. Alberto”, tamanha a identificação do lugar com sua figura.

Alberto ingressou na Didácio em 2003 como professor e dois anos depois foi eleito pela comunidade escolar como diretor, posto em que permaneceu até 2013. Ele lembra com carinho do tempo em que esteve à frente da gestão e relata que sempre pautou sua atuação no diálogo e na relação muito próxima e aberta que tinha com a equipe e principalmente com os estudantes.

“Minha diretoria era itinerante, era na escola, no pátio, na sala de aula…”, diz. “O sucesso [do trabalho] foi baseado na empatia, no se colocar no lugar do outro, em ver em cada estudante como um filho seu”, acredita.

Foi com esse olhar paternal que ele fazia a gestão da escola, atento à situação de vulnerabilidade dos estudantes atendidos e que afetava o desenvolvimento dos jovens.

“A escola é a escuta deles. Eu recebia os estudantes 6h30 da manhã. Olhava, sabia quem tinha tomado café e quem não tinha, porque não tinha em casa”. “Eu ainda me emociono com essas histórias. Nunca vi juventude tão abandonada como essa…A gente tem um olhar para infância, para os idosos, mas a juventude é invisibilizada”, pensa.

Alberto também destaca o esforço empreendido para construção de um clima de respeito e valorização da diversidade na escola.

“Tinha espaço pro umbandista, evangélico, católico, o que o aluno quisesse. E tinha que ser respeitado. Uma coisa que eu não admitia dentro da escola era intolerância, falta de respeito. Todo mundo tinha que ser aceito do jeito que era, e ser chamado pelo nome que ele quisesse ser chamado”, destaca.

Em 2013, saiu da Didácio para liderar uma das gerências regionais de educação da rede estadual, formada por 33 escolas. Com a mudança na gestão do Governo do Estado, retornou à escola em 2014 e no mesmo ano ganhou o Prêmio Gestão Escolar. Em 2019, foi convidado pelo atual Secretário de Educação, Ellen Gera, para assumir a Coordenação das Escolas de Tempo Integral – cargo que ocupa atualmente. “Chorei horrores”, conta.

Agora como coordenador, Alberto acredita que o reconhecimento do que foi construído na Didácio facilitou o reconhecimento de sua liderança.

“Eu me vejo com uma contribuição muito grande pelo próprio respeito dos outros diretores, pela aceitação agora na coordenação e acredito que foi pelo trabalho realizado dentro da escola. Eu chego na escola, eles têm todo o cuidado, todo o carinho de me receber como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo”, diz.

“Conheço um gestor no olhar, no que eu vejo a escola, e cada gestor eu vejo como um grande amigo de profissão. O que eu vejo que não está bem procuro dar aquele toque bem sutil, não como um coordenador mas como um amigo que quer ver a escola a frente”, explica.

Sobre a pandemia, ele destaca o esforço para manter o vínculo dos estudantes com a escola mas pensa que ela serviu também para reforçar a importância da instituição.

“A peteca não caiu, foi desafiador demais. Mas foi bom para gente ver o quanto vale o chão de uma escola”, conclui.

Serviço

Exposição “Ser Diretor – Uma viagem por 30 escolas públicas brasileiras”

Quando: de 17 de novembro a 10 de janeiro

Onde: Estação República do Metrô de São Paulo

Horário: das 4h40 até as 0h

Apoio: Metrô de São Paulo e Governo do Estado de São Paulo

Compartilhe esta notícia!